Andava na semana passada pela rua do Matoso, aqui na Tijuca, quando encontrei o seu José no portão da vila onde mora. Era de manhã, e ele vestia bermuda num horário de labuta, com uma cara lúgubre.
O açougue Recreio, na rua Haddock Lobo nº 159, ao lado da padaria Milu, faz parte da minha vida. Desde pequeno, puxado pelo forte braço de meu falecido pai, um espanhol que gostava das coisas simples, - chorava à toa o coroa - que frequento o açougue. De meu pai, aliás, herdei seus amigos do coração. O seu Salvatore, peixeiro da feira da minha rua, seu Antônio, jornaleiro da esquina, seu Mario, o joalheiro, seu Valença, que era o seu relojoeiro, seu Lavandeira, que é meu alfaiate hoje em dia, e seu José, do açougue do bairro. Todos já com suas idades avançadas, mas batendo o ponto diariamente.
De criança à homem, comprar carne no açougue Recreio sempre foi parte do meu cotidiano, como me ensinara meu velho. Pois então, tinha o sonho de fazer o mesmo com o meu filho, isso se eu um dia for pai.
Mas no açougue de minha infância, e de minhas lembranças, não será mais possível. Ele morreu. Por isso o seu José anda cabisbaixo, ele perdeu a luta contra os impostos, e contra os malfeitores que comandam nosso Brasil.
- Não sei o que faço agora, acho que vou parar. Disse coçando a barba branca por fazer.
Este nobre e ainda robusto homem de 75 anos, trabalhava no local há 43, e conhecia todos da região. Tinha gente que comprava pão na padaria e depois passava no açougue só para conversar com seu José, e depois acabava levando uma carninha. Carne de primeira e de segunda, frango, porco, fígado, língua, linguiça, miúdos... Tinha tudo fresquinho por lá, eu até brincava com ele falando que só faltava orelha de galinha.
Depois dessa notícia, uma coisa me deixa encucado... Quanto tempo aguentará o seu José sem a sua rotina, já que lhe arrancaram um pedaço de forma brusca e contra sua vontade? O que fará este senhor no seu sofá? Com certeza ele está em casa neste momento, ainda sem acreditar que lhe puxaram o tapete, sendo perturbado por sua memória, que deve estar insistindo em resgatar momentos de seu querido local de trabalho.
O açougue Recreio, na rua Haddock Lobo nº 159, ao lado da padaria Milu, faz parte da minha vida. Desde pequeno, puxado pelo forte braço de meu falecido pai, um espanhol que gostava das coisas simples, - chorava à toa o coroa - que frequento o açougue. De meu pai, aliás, herdei seus amigos do coração. O seu Salvatore, peixeiro da feira da minha rua, seu Antônio, jornaleiro da esquina, seu Mario, o joalheiro, seu Valença, que era o seu relojoeiro, seu Lavandeira, que é meu alfaiate hoje em dia, e seu José, do açougue do bairro. Todos já com suas idades avançadas, mas batendo o ponto diariamente.
De criança à homem, comprar carne no açougue Recreio sempre foi parte do meu cotidiano, como me ensinara meu velho. Pois então, tinha o sonho de fazer o mesmo com o meu filho, isso se eu um dia for pai.
Mas no açougue de minha infância, e de minhas lembranças, não será mais possível. Ele morreu. Por isso o seu José anda cabisbaixo, ele perdeu a luta contra os impostos, e contra os malfeitores que comandam nosso Brasil.
- Não sei o que faço agora, acho que vou parar. Disse coçando a barba branca por fazer.
Este nobre e ainda robusto homem de 75 anos, trabalhava no local há 43, e conhecia todos da região. Tinha gente que comprava pão na padaria e depois passava no açougue só para conversar com seu José, e depois acabava levando uma carninha. Carne de primeira e de segunda, frango, porco, fígado, língua, linguiça, miúdos... Tinha tudo fresquinho por lá, eu até brincava com ele falando que só faltava orelha de galinha.
Depois dessa notícia, uma coisa me deixa encucado... Quanto tempo aguentará o seu José sem a sua rotina, já que lhe arrancaram um pedaço de forma brusca e contra sua vontade? O que fará este senhor no seu sofá? Com certeza ele está em casa neste momento, ainda sem acreditar que lhe puxaram o tapete, sendo perturbado por sua memória, que deve estar insistindo em resgatar momentos de seu querido local de trabalho.
Para ilustrar este fato infeliz, deixo as imagens do falecido, e um dia glorioso, Açougue Recreio:
6 comentários:
Caraio, Felipe!
Me desculpe o palavrão, mais é foda. Confesso que os meus olhos encheram de lágrimas.
Ontem estive com o meu pai no boteco que ele freqüentava outrora. Sempre que ele vem para estas bandas aonde eu moro, ele faz questão de rever seus companheiros de bebedeira de outrora.
Quero aqui contar esta estória para você, me lembrei quando era menino, ele me levava nas tardes de sábado para tomar refrigerante na espelunca. Ontem depois de uns 10 anos, pisei novamente no boteco, e vi que nada mudou que tudo continua o mesmo, inclusive os freqüentadores. E que a vida do Seu Venâncio é aquele boteco, sem ele seria incapaz de continuar a vida.
Abraço
É, malandro... também senti o fechamento do glorioso açougue... Não cheguei a conhecer, assim tão de perto, o seu José, mas eu era um dos fregueses do Recreio. E era com ele que eu gostava de comprar as carnes e de fazer os pedidos impossíveis de fazer nos supermercados que maltratam a carne nossa do dia-a-dia: rabada cortada na junta, filé mignon com três dedos de altura em forma de medalhão, lagarto limpinho e bem aparado...
Vai-se mais uma glória da nossa Tijuca.
Putz, e passando por lá hoje, de carro, disse a Dani, depois de eu ter contado essa história pra ela:
- Puxa... não era ele que preparava os ossos que o Pepperoni adorava?
Era ele, Cereal, era ele...
Aí é foda, coitado do Pepperoni. Mais uma glória que se vai, meu irmão, mais uma...
Fará muita falta no bairro.
Porra, que triste... Por que "eles" não nos deixam - como diz o Szegeri - quietinhos no nosso canto, com nossos botequins, nossas padarias, nossos açougues? Não basta dominar, "eles" têm que aniquilar todo e qualquer vestígio de humanidade. Foda isso.
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