10 Fevereiro 2010

A SEDE É DA TIJUCA

Como alguns sabem, a gloriosa sede do America da rua Campos Sales será leiloada nesta quinta-feira às 14:30 da tarde. O que acontece é que o clube está com uma dívida de pouco mais de um milhão com a construtora W. Torre Jr., empresa que fez alguns serviços no campo Giulite Coutinho no ano 2000. Serviço porco, diga-se de passagem, pois tivemos problemas mais de uma vez com o teto da arquibancada. Times como Vasco, Flamengo, Botafogo e Fluminense têm dívidas muito maiores do que as do Diabo e não sofrem tal ameaça. Essa foi uma das reclamações de ontem na sede, durante uma manifestação para evitar o tal leilão.

O prefeito Eduardo Paes esteve reunido com o presidente americano Ulisses Salgado e prometeu que tombará a sede, evitando assim uma desgraça. Alguns torcedores ainda estão cautelosos com esta notícia, pois acham que a diretoria tem mesmo é o interesse da venda para um shopping center, o que seria pior ainda para o bairro.

Mas se tudo der certo, e parece que o caminho é esse, nossa histórica sede tijucana continuará alegrando as famílias do bairro. Muitas pessoas choravam ontem diante do clube, afirmando que o local faz parte de suas vidas. Vários bailes são realizados para a sociedade da zona norte em seus salões e fatos históricos aconteceram ali. Antigamente havia um campo de futebol no interior do clube, e este campo foi o primeiro a abrigar uma partida com arquibancada e placar eletrônico no Brasil. Outro fato, este curioso, é que num dos famosos bailes do America, o nosso Zagallo conheceu sua esposa após tirá-la para dançar.



foto: ANR



A sede do alvi-rubro da Tijuca está avaliada de 18 milhões de reais.

Saudações rubras.

08 Fevereiro 2010

BRASEIRO MODAS

Está num pedacinho da rua Haddock Lobo, entre ruas do Matoso e Batista das Neves, uma sequência de estabelecimentos comerciais muito antigos, tradicionais e importantes para o bairro. Começando do sentido da mão dos carros, temos: Óticas Nuance, Doceria Popeye, Ervedosa materiais de construção (esta pegou fogo e agora está situada na rua Barão de Itapagipe), Floricultura Flor de Liz, Armarinho Braseiro ou Braseiro Modas, um boteco imundo, um barbeiro mais imundo, porém, há trinta anos ali, uma loja de roupas chiques para senhoras chamada Bidú e finalmente uma loja de móveis chamada "House".

Tenho neste pedaço de rua, meus caros, comércios e comerciantes que estão no meu coração. O motivo? Todos estão lá, no mesmo lugar, desde que passeava por ali no colo da minha mãe, ou antes. O bairro da Tijuca é o que é por causa disso. Passeia-se pelas ruas com a sensação de que estamos andando pela sala de nossa casa. O orgulho de ser tijucano está estampado no rosto dos transeuntes, que sempre fazem questão de mandar acenos, dar tapinhas nas costas ou largar suas sacolas de compras no chão para papear com um vizinho que acabam de encontrar. A Tijuca me dá todos os prazeres da vida, isso basta.

Hoje pela tarde dei um pulo até a Braseiro Modas, fui comprar uma bermuda. A casa está fincada ali há exatos 44 anos, ou seja, desde 1966. As roupas estão expostas em cristaleiras muito bonitas, bem altas, pois o pé-direito da casa deve ter seus seis metros. Camisetas furadinhas, camisas sociais, camisolas, meias sociais, calçolas, cintos elegantes e moda íntima em geral enchem as estantes e mostruários.

Seu Armindo e dona Célia são portugueses e tocam a casa com simpatia tijucana. Andei conversando com ele, e disse-me que ali era uma antiga farmácia antes de abrir a Braseiro. Informou-me também que muita gente veio prestigiar a inauguração, inclusive um famoso do bairro, o Tim Maia. Fiquei mais de uma hora ali e confesso que entrei no túnel do tempo. O bom homem me contou coisas preciosas da redondeza, coisas que um dia compartilharei com todos.

Comprei uma bermuda Pool e uma camiseta amarela da Hering e em troca ganhei o carinho das pessoas queridas do meu lugar.


A fachada.



Vitrine recheada.


Dona Célia ao lado dos cintos América.



Nota de 10 cruzeiros para demostrar a existência do bolso traseiro.



Seu Armindo pegando minha camiseta.



Camisolas.



Bermuda Pool.



Interior da loja.


Camisetas, meias e cuecas.

Até.
obs: Favor não reparar na qualidade das fotos. São de celular.

04 Fevereiro 2010

NOTA

Caros,

realmente não imaginava que haveria toda esta confusão com minha decisão de parar de escrever por aqui. Quero que fique claro que qualquer decisão que eu tome não tem nada a ver com o Edu. Ele tem todo o direito de tirar link ou fazer suas críticas no Buteco. Isso realmente não atrapalha este blogue. Resolvi parar porque estou sem tempo e sem saco.

Andei conversando ontem com amigos como Simas, Dudu, Digão, Zé Sergio, Leo Boechat e o próprio Edu, e isso me fez pensar sobre a decisão. Realmente estava querendo algo novo, mais voltado para os bares, mas nada impede que eu faça somente isso por aqui também.

Por enquanto vou ficar parado, e pode ser que volte. Talvez amanhã ou até mesmo nunca. Ainda estou resolvendo.

Queria avisar que infelizmente os comentários serão moderados. Acho isso chato, muito chato, pois toda hora tens que ficar lendo email e depois aprovar. Mas não gosto de baixaria e ofensas por aqui, e no último post teve gente que exagerou.

Agradeço a todos pelos elogios que me foram feitos.

Muito obrigado mesmo.

Até.

03 Fevereiro 2010

CAMPANHA RUIM DO MECÃO

Mais um início de campanha ruim para o America. Antes do campeonato falava-se em título, mas na hora da verdade o que se viu foi o de sempre. Jogos horríveis, jogadores bisonhos e um técnico que não é técnico.

O Beteto não fala nada, não grita, não diz palavrão na beira do gramado... O time está totalmente sem comando. Dificilmente teremos novos atletas incorporados ao plantel, mas podemos e devemos mudar de treinador. Espero que consigamos pelo menos os pontos necessários para a classificação do brasileiro deste ano. Está difícil torcer, pois o time não dá alegrias. A torcida, coitada, ainda vai aos estádios incentivar, mas sempre sair de cabeça baixa.




O que nos resta é a esperança de dias melhores, mas parece que estes dias nunca chegarão.

A FOLIA ESTÁ CHEGANDO

O carnaval está batendo em nossas portas e por causa disso nossas almas começam a ficar inquietas. Tem bloco de rua, tem desfile no Sambódromo pela escola querida, tem baile de salão, ou mesmo a solitária folia de balcão. O importante é que o folião é sempre flechado pelo cupido da esbórnia. A razão, que temos que tê-la como aliada para maneirar as atitudes impensadas, fica sempre de fora dessa festa colorida. É nesta época do ano que o verbo brincar, tão simples e cada vez mais esquecido, tem seus dias de protagonista. As pessoas que brigam entre si durante o ano por motivos pífios, pulam juntas com suas fantasias trocando gargalhadas sem fim. As regras vão pra cucuia, pois o que manda agora é a incerteza do daqui a pouco, queremos é que nossa felicidade faça uma orgia com nós mesmos. Todos são iguais, todos, já que as desigualdades não existem para quem entra na folia. Milionários e moribundos dançam de pileque abraçados no meio da multidão ao som de Bandeira Branca, pois ali, não pensam no caviar de logo mais e na quentinha a ser batalhada pelas esquinas. Crianças largam suas tvs hipnóticas e seus games doentios para, enfim, viverem um pouco. Os velhinhos serelepes se esbaldam como se estivessem sonhando, e ao mesmo tempo pedem aos santos para que aquele não seja seu último carnaval.

Ele está chegando, vai ser bom demais. Viva!



Vos deixo este documentário muito bacana que encontrei na rede:




Até.

29 Janeiro 2010

FESTAS DE CRIANÇAS E DE VELHOS

Aqui em casa sempre teve festa, minha família é assim até hoje. Além de ser grande e muito unida, todos moram na Tijuca. Datas como natal, ano novo, , reis magos, São João, São Sebastião e dia das mães são sagrados. Quando alguma delas estava por perto sabia que aquela bagunça estava por chegar. As festas revezavam de casa, é assim até a presente data. Minha família, hoje, junta umas sessenta pessoas no natal, por exemplo, mas há uns vinte e cinco anos pode considerar esse número pela metade.

Meu pai e seus irmãos sempre organizavam o furdunço, e como haviam passado o pão que o diabo amassou por consequência da guerra civil espanhola, uma coisa sempre tinha em abundância na mesa, a comida. Além disso, todos eles trabalhavam no ramo bar/restaurante, o que facilitava a aquisição do "material". Lembro como se você hoje meu anversário de 6 anos. Meus amiguinhos da escola todos presentes, com chapéu na cabeça e língua-de-sogra na boca, olhando para o bolo do pica-pau (tive seis aniversários seguidos do pica-pau), e para todo o restante da mesa. Caros, o troço era violento. Peça de pernil, Jamón, três repolhos com sacanagem, carne assada fatiada, uma travessa com salada de batata, frios, pão pra caralho, pão com patê... Ao lado da mesa principal, meu pai tinha um bar, onde ficavam seus conhaques e brandies. Nós, as crianças ficávamos com o pão com paté, bebíamos nosso refri, e esperávamos pelos doces.

Os velhos trabalhavam duro, pouco tempo tinham pra se reunir, então qualquer festinha era motivo. Eu sei o seguinte, enquanto a criançada ainda estivesse ali, a coroada segurava um pouco a onda na bebida e enchia o bandulho de pernil, mas depois... O terceiro aniversário da minha irmã do meio foi foda. Eles alopraram do início ao fim, com garrafas vazias e pilhas de fitas cassete na mesa. As mulheres, minha mãe e tias, apenas conversavam e assistiam seus maridos irem se transformando em bárbaros.



Começo de festa. Meu velho pai ostenta a barba. Eu à esquerda.


Final da festa. Minha irmã no colo do velho sem entender nada.


Meu tio Celestino, o Espanhol, (já falei dele no blog), não podia ver uma gelatina na mesa. Ele pegava a bandeja e começava a balançá-la até desfazê-la ou algo assim. Era uma coisa de louco.



Espanhol e a gelatina. Era sempre a mesma coisa.

Os vizinho aqui do prédio, em todo começo de dezembro batia aqui na porta para perguntar se sediaríamos o natal. Se a resposta fosse positiva, ou eles se mandavam ou vinham pra minha casa. Teve um ano que o andar inteiro ficou vazio, só o nosso apartamento ocupado. Era uma gritaria só, crianças aos montes e a coroada que falando alto pra caceta.

Hoje é a molecada daquela época que agita as festas. O time dos velhos já está desfalcado, mas os que ainda estão aí ainda desafiam qualquer um na arte da birita, está no sangue deles. Foi uma época muito boa, que nunca esquecerei. Atualmente, apesar das coisas estarem mudadas, também é bom. Agradeço muito aos meus pais e tios por realizarem as bagunças mais bacanas que vivi.

Qualquer hora lembro de outras histórias e coloco aqui.

Até.

24 Janeiro 2010

CÉU DA GUANABARA

Na última sexta-feira choveu pra cacete na cidade maravilhosa, e depois do pé d'água o evento da noite estava pra acontecer. Foi o dia do concerto do Benito de Paula, na churrascaria Gaúcha, no bairro das Laranjeiras. O meu camarada Dudu Sarmento me arrumou um ingresso dos que havia ganho através do blog do Edu, e por causa disso fui ver o homem. Aproveito para agradecer ao Dudu pela gentileza. Sobre o show do Benito, só posso dizer que gostei muito, principalmente por causa das pessoas que estavam comigo. Indico a leitura deste texto escrito pelo Edu em seu BUTECO DO EDU, pois lá encontrarão detalhes sobre a bela noite que passamos.

Antes de entrar na churrascaria, marquei com o Dudu num botequim bem perto dali. Cheguei um pouco mais cedo, o bar estava cheio e fui pedindo minha cerveja. Tinha uma turma animada falando sobre um bar no centro e resolvi entrar na conversa quando estavam querendo saber o nome de uma rua. Em poucos instantes veio o Dudu, que mora bem perto dali. Foi um festa. Ele logicamente conhecia todos que estavam bebendo e por causa disso foi me apresentando a turma. Dudu puxou pelo braço um coroa na casa dos setenta e me apresentou, o senhor chamava-se Baiano. Antes, disse-me ao pé do ouvido:

- Vou te apresentar um cara que tem muitas histórias boas pra contar. Não sei se são verdade, mas também não quero saber, pois são boas de ouvir.

E logo depois de sermos apresentados o caboclo já começou a falar e falar... Falou da época de capoeirista em Salvador, de quando andava pelo porto de lá e conseguia suas calças "lee", disse que foi modelo e até mesmo fez figuração para filmes do Glauber Rocha, de quem inclusive é amigo até hoje! É, foi assim que ele disse. Mas embora nem tudo ter sido verdade, realmente era bom de ouvir. E ali ficamos mais do que devíamos, pois a cerveja fumegava e todos conversavam com todos um papo que não dava vontade de acabar. Mas o Benito nos esperava e nós estávamos ansiosos também.




Segundo o Dudu, este boteco que tem um nome muito bonito, Céu da Guanabara, é bastante respeitado na área e já está ali há muito tempo molhando o bico da rapaziada. É um pé-sujo de verdade, com seus quitutes tradicionais na estufa, tinha uma carne assada linda demais, e com uma cerveja de primeira.

Fica aqui a dica para quem passar pela rua das Laranjeiras, o bar fica quase em frente da Gaúcha.

Até.

21 Janeiro 2010

ANIVERSÁRIO DA FOLHA - IMAGENS

Imagens dizem tudo. E estas abaixo mostram que a tarde de ontem na rua do Ouvidor foi fantástica. Todos os amigos estavam reunidos para o lançamento do livro Canções do Rio, organizado por Marcelo Moutinho, com textos de vários craques das letras, e também para o aniversário da Folha Seca, livraria de meu irmão Rodrigo Ferrari.

Foi um dia de São Sebastião bem generoso para os que pintaram pelo casco velho carioca, um dia digno para os que amam o Rio de Janeiro.













Até.

13 Janeiro 2010

AS MULHERES DE MEUS DEVANEIOS

Matilde Mastrangi

Minha nossa senhora! Essa dona arrasou comigo quando garoto. Matilde Mastrangi, com seus dotes físicos, digamos, gostosona sem academia, enlouquecia qualquer um. Era muita carne de primeira ali, uma opulência perfeita, apetitosa.

Wanderley Cardoso, em 1971, indicou a moça ao Silvio Santos, que na mesma hora a colocou para dançar no palco. Virou modelo logo depois, saindo na capa de algumas revistas. Em fevereiro de 1983 saiu na capa da playboy, uma edição bem disputada.

Depois do sucesso na TVS ajudando o dono do baú, seu "talento" foi descoberto e passou a estrelar os famosos filmes de pornochanchada. Estreou em 1974 com "As Cangaceiras Eróticas, e participou de mais trinta longas do gênero. Destaques para "Bacalhau", uma paródia escrachada de Tubarão, "Caçadas Eróticas", "A Noite das Taras" e "Pecado Horizontal".



Matilde, ao lado de Helena Ramos, foi umas das principais atrizes desses filmes de pouca vergonha. Nas gravações de "Uma ilha para três" conhece o ator Oscar Magrini, com quem se casou e teve uma filha.

Com esta, meus caros, nunca tive vontade de me casar, desejo que possui pela Monique Lafond (veja aqui), mas sim de fazer bagunça mesmo. Ela tirou meu sono de garoto várias vezes, e sua cara de tarada fez muito marmanjo perder a noção e arrumar confusão com a patroa. Quando tinha a oportunidade de ver um filme seu passando pela madrugada, chegava perto da tv para tentar sentir o cheiro de seu corpo através da tela, e a minha imaginação era tanta que realmente sentia aquela essência de pecado carnal penetrando por minhas narinas.

Até.

11 Janeiro 2010

UM SÁBADO SUBURBANO

No primeiro domingo do ano estive na gloriosa rua Casemiro de Abreu para a inauguração de uma laje. Um camarada meu da área convidou-me para o evento. A rua inteira deu as caras, e a festa estava realmente animada. Eu fiquei impressionado com os preparativos. Teve fita vermelha para ser cortada, cerveja e comida sem miserê, piscina estilo "Toni" para quem quisesse espantar o calor, samba nas caixas de som e muito papo. Pois neste dia, meu companheiro de copo e de conversa foi o Toninho. Toninho é um português que veio para o Brasil com dois anos de idade e nunca mais voltou. Hoje tem cinqüenta e cinco. Além disso, é o maior soltador de pipas da região. Foi durante a prosa que ele me informou que no dia nove de janeiro haveria o primeiro campeonato de pipas do ano ali no bairro da Abolição. Prometi presença e mantive palavra, no último sábado estava lá.

O bairro da Abolição, assim como a maioria do subúrbio carioca, tem uma lojinha de pipas em cada rua, e a venda também é feita dentro da casa das pessoas mesmo. Eu sou perna-de-pau na arte de soltar pipas, pois aqui na minha rua o forte era a tradicional pelada no asfalto, pião e a bola de gude. Soltava-se pipa, mas eu nunca levei jeito.

Cheguei na Casimiro de Abreu um pouco atrasado, por volta das onze da manhã, mas ainda peguei parte da peleja. Tinham crianças dos cinco aos oitenta participando, e no final de tudo a barbada se confirmou, Toninho. Eu assisti tudo de dentro do bar do seu Geraldo (veja sobre ele aqui) bebendo minha gelada, pois aproveitei mais um dia para visitá-lo.

A rua estava especialmente encantadora neste dia, toda a coroada estava com suas cadeiras na calçada, os velhos com suas cervejinhas e dominó e as velhas passando tabuleiros de bolo para a criançada dizendo:

- Saco vazio não fica em pé... Venham comer!

Os moradores se conhecem há muitos anos e por conta disso deixam suas casas abertas e ficam fofocando por ali. Como há fofoca no subúrbio. A falação do dia, por exemplo, era sobre o Merenda, um gordão de uns duzentos quilos que acabou de separar-se da mulher e parece que agora só trás avião pra dentro de casa. Cochicharam também sobre o novo filhinho do Everaldo, da casa amarela, pois parece que o garoto nasceu com um dedo a mais no pé. Se perguntavam sobre a Lucia, uma vizinha de meia idade que ainda não arrumou homem. Estes temas do cotidiano são o combustível para o blá blá blá.

Eu via e escutava tudo lá do Geraldo, pois não saía dali nem por um decreto com aquele calor. A cerveja do Geraldo, meus caros, deixa pra lá. E quando estava por ali conversando com um e com outro surgiu o meu amigo Luis, que vive ali e também coleciona vitrolas como eu. Antes de nos abraçamos efusivamente já havia lhe dado um copo cheio da gelada. A primeira coisa que falou foi a seguinte:

- Me espere aqui. Vou até minha casa pegar meu novo brinquedo para você babar.

E eu, ansioso:

- Não demore, vou pedir mais uma.

Em dois ou três minutos estava ele de volta com três lps na mão de 78 rotações e uma caixinha bem pequena, mas pesadinha. Quando ele foi abrindo a caixa, me dei conta de que era uma espécie de vitrola. Ele explicou:
- Este é um gramophone portátil suíço de 1942, feito especialmente para os soldados que estavam na guerra. Está em perfeito estado, e funciona à manivela.

Porra, eu confesso que me emocionei quando vi a criança girando pela primeira vez, Que som! Ficamos ali bebendo cerveja, dando corda no aparato e escutando discos no meio da rua, em frente ao Geraldo. Os velhos se aproximaram com ares de saudade e ficavam olhando calados, com o pensamento sabe-se lá aonde. A molecada largou a traquinada de lado e também chegou para ver a nova tecnologia. Não ficavam quietos, queriam saber o que era aquilo e da onde saía a música.

Eu esqueci de todos os meus problemas neste dia. Cada vez tenho mais certeza que as coisas mais simples são as que nos dão mais prazer e felicidade. Queria muito que todos os meus amigos estivesse ali comigo vivendo o que vivi, pois são como eu e iriam se emocionar da mesma forma.

Vos deixo com um pequeno filme que fiz, em que o Luis bota a vitrolinha pra funcionar. Notem a tranquilidade da rua suburbana.




Até.