07 junho 2007

JESUS ESTÁ CONOSCO

Está voando neste momento para a Espanha o meu camarada Jesus, sim, eu conheço Jesus. E isso desde 1999, quando este boa praça e carioca de 53 anos andava numa loja de vinis na Galicia na época em que eu morava lá, nesta magnífica terra celta. Chegamos a abrir um bar em Santiago de Compostela, mas o banzo pelo Brasil foi mais forte, e para a minha felicidade estava certo, no natal de 2000 voltei para a cidade maravilhosa. Ele não acreditava que estava eu largando a Europa para voltar, mas hoje ele me entende, pois também não aguenta mais ficar longe de casa. Jesus veio por uma semana para resolver coisas de família, e demos umas voltas juntos nestes dois últimos dias. Na segunda fui mostrar-lhe como anda a Lapa, pois tinha vontade de revê-la. Rodamos todos os cantos e rapidamente ele percebeu o surgimento de bares de merda pela redondeza, até que bradou quando avistou o Antônio's ao lado do Informal:

- Que poooorra é essa!!!!

Aí comecei a lhe explicar todo o processo de anti-cultura que estão querendo semear na cidade, e com a ajuda em peso da canalha, que faz questão de reverenciar estes antros de desconhecedores. O bom é que Jesus está do nosso lado, gosta do que é nosso, ama os botequins de verdade, sabe quem é, e o que faz a canalha, e sempre que pode se envolve nesta batalha também.

Acabamos nos sentando no Alemão (Bar Brasil), pois precisávamos nos hidratar com aquele líquido amarelo e cheio de pressão, perdi a conta do número de caldeiretas, ficamos até fechar, para matar a saudade. Na terça, desta vez com minha mulher Heloisa e meu cunhado André, tomamos a entradeira no Alemão novamente, e depois o levamos para assistir a roda de choro no Trapiche Gamboa. Quando entramos, percebi sua feição de alegria, ele estava sentindo que seria uma noite daquelas, fundamental na sua decisão de retornar para a América do Sul. E foi.


Eu e Jesus

Só rolou Pixinguinha e Jacob do Bandolim, papa fina, com os músicos muito inspirados na clarineta, sax, flauta transversa, bandolim, sete cordas e pandeiro. E tome cerveja! O lugar estava cheio, pessoas dançando e sorrindo umas para as outras, foi quando puxou-me pelo braço e disse:

- Irmão, estou voando amanhã, mas já estou decidido, voltarei. Nestes sete dias que passei aqui só aconteceram coisas boas, não aguento mais aquele frio e aquela neve, é muita depressão. As pessoas são muito conservadoras, poucas são as que te acolhem, aqui não, existe uma palavra que se chama AFETO - gritou ao dizê-la - e isso é o que me passam aqui. Sinto-me querido pelo próximo, estes sete dias venceram os sete anos que vivo fora, pode anotar, já voltei.

E realmente era a noite. Começamos a conversar com o povo de duas mesas ao lado e unimo-nos em uma só. Cada um falando um pouco de sua vida, até que todos souberam da vontade de meu camarada em regressar. No instante do intervalo, quando ele retornava do banheiro, todos começaram a bater palmas e gritar ao mesmo tempo:

- Fica Jesus! Fica Jesus! Fica Jesus!

O que é isso bicho! Até eu me emocionei na hora. A galera se solidarizou com ele, que por sua vez não pôde evitar as lágrimas, que vieram por culpa de pessoas que jamais tinha visto, foi a batida do martelo. E para completar, na saideira da roda de choro o flautista pegou o microfone e mandou:

- Esta última canção dedicamos ao Jesus, para que ele volte logo!

Na altura do campeonato o lugar todo já sabia do causo, começaram a rir. Uma destas pessoas, uma linda senhora de 75 anos que dança prá burro e já estava em nossa mesa, era Sônia Prestes, prima do Cavaleiro da Esperança, gente finíssima. Conversamos bastante sobre o Rio antigo e nossa cultura em geral, ela é outra amante de história.


Eu e Sônia Prestes

Partimos todos ao mesmo tempo e nos despedimos de Jesus, já sabendo que sairemos outras vezes em breve. Percebi neste dia como ainda existem pessoas partidárias à gentileza, ao amor, e ao sentimento. Ainda temos um grande exército para lutar contra os "grandes" que insistem em acabar com tudo isso, que são de pedra, prezam o material, o que não é nosso, e querem levar todos para o lugar que é somente deles, a chafurda.

Fiquem com Jesus.

3 comentários:

Eduardo Goldenberg disse...

Tá lá, meu compadre! Teu blog tá no meu balcão! Abraço.

Anônimo disse...

Exatamente meu caro, que os porcos fiquem eu seus lugares. E que o Jesus volte logo!

Anônimo disse...

Grande sabedor das coisas, continue sentando o pau... Quero conhecer Jesus