Foi o que eu fiz indo até o Bico Doce, tirar da minha mente estes pensamentos que me inquietam a cada dia que passa. Tinha combinado com o meu tio/pai Celestino, o meu cunhado André e com o meu irmão Zé, mais de 25 anos de amizade. O pessoal da uisqueria também estavam me esperando, sabiam que estava ficando mais velho.
Cheguei por volta das 19 horas, o André já estava sentado na mesa da diretoria com o Adolfo e o Áquila. Juntei-me a eles e o Claudio pôs minha garrafa na mesa. Estavam papeando sobre música, pra variar, assunto que Adolfo domina por ser um "percussa" dos bons e conhecer muita gente da área. Eu e André só escutando e aprendendo com o papo das antigas, mas de vez enquando surpreendemos o coroa.
Logo depois que Áquila, gente finíssima, saiu pra dar uma aula, chegaram o Zé e meu tio/pai. Sentaram no canto da diretoria também, meu tio foi apresentado a todos e adorou o local.
- Claudio, põe mas dois copos com gelo aqui por favor.
E começaram a se hidratar conosco. Meus amigos perceberam que meu tio estava muito feliz ali, os camaradas além de serem de sua faixa etária o acolheram muito bem, parecia que já frequentava a casa à anos, mas era apenas um debutante. Estava extremamente feliz por reunir este pessoal, falando sobre coisas antigas e boas, sorrindo com gente querida, olvidando por um momento a vida feroz que estava fora dali.
Meu tio e o Adolfo se identificaram demasiadamente, sabiam das mesmas coisas e frequentaram os mesmos locais em décadas passadas. Quando Adolfo disse que ia no El Faro, restaurante de toda a vida de trabalho de meu tio/pai, foi foda, euforia total. A conversa voltou-se para os bares e lugares antigos da noite do Rio, Galeria Alaska, Beco das Garrafas, Beco da Fome, Rio Jerez, Mamute... Discutiram até sobre os trajetos dos bondes.
- Se lembra do bonde 36 que fazia a curva ali na cancela...
A conversa estava demais, os mais novos delirando e querendo fazer o tempo voltar atrás e o resto das pessoas do Bico Doce entraram na roda também, Cabral, Tião, João, Maurício, Assis... Todos. Eram tantas as coisas que estavam sendo tiradas do fundo do baú que era impossível não prestar atenção. O Áquila voltou da aula e enriqueceu ainda mais a prosa.
Eles estavam tão contentes que houve uma hora que o Adolfo abraçou meu tio e disse que iria adotá-lo:
- Aí Felipe, adotei o cara, tu perdeu o tio. Esse homem é muito gente boa, tem que voltar mais aqui...
Rimos pra cacete nessa hora, o Zé se acabou na mesa. Ah, esqueci de falar que isso tudo rolou ao som de Cartola, Elizeth Cardoso cantando Vinicius, Kid Morengueira, Ella Fitzgerald, Count Basie, Chico... Tava muito cruel esse repertório, que noite foi essa.
Fechamos o bar, pegamos um táxi e nos mandamos. O Zé ficou no caminho, deixei meu tio/pai em casa e depois só pensava numa coisa: minha cama.
Hoje pela manhã ainda teve mais, reunimos parte da família e almoçamos no Alemão (Bar Brasil). E lá é a mesma coisa, aquela espanholada de velhos tempos. Um dos donos, seu josé, só de Alemão tem 50 anos, os garçons Chico e Bigode (tudo espanhol, galego) são mais novos, só 47 anos de casa.
Mais conversa, mais lembranças... Não consigo deixar estes locais, aprendo muito e vejo coisas que nunca vi com estes seres especiais. E aquele chopp na pressão do Alemão é brincadeira.
Amanhã irei almoçar no Joaquim (minha segunda casa) com mais amigos e família, na certeza de que minha memória voltará a sorrir.
Abraço.




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