22 Abril 2009

A NOITE DO SEU NESTOR

Seu Arthur (que acho que ainda vive na área, pois esbarrei com ele na feira dia desses), morou no meu prédio durante duas décadas, mais precisamente no apartamento 102. Ele havia seguido carreira militar, e desde que o conheço está aposentado. Seguramente deve estar na casa dos noventa, o velho, mas tem boa aparência, e lhe dão no máximo uns setenta e cinco. Nunca foi casado.

Era parceiro inseparável do seu Nestor, vizinho do 302. Seu Nestor (este sim já esticou as canelas), era marido da fabulosa Dona Zilah, e banguense roxo. Quase todos os álbuns de figurinha que tive foram regalos dele. Dona Zilah (que juntou-se a ele novamente neste ano) era maravilhosa. Sempre deixava eu me esconder em seu apartamento quando fugia das garras do meu velho depois de aprontar mais uma travessura.

Os dois velhotes sempre viviam juntos pela rua e pelo bairro. Aposentados, com a mesma faixa de idade, e ainda com disposição, ficavam horas a fio conversando no extinto bar do seu Secundino que ficava na esquina, ou mesmo com o jornaleiro da rua. Seu Arthur bebia, seu Nestor não. Mas isso não atrapalhava a bela parceria deles. Quando um estava sem o outro na rua, pensávamos que algo estava errado com um dos coroas.

Eram muito amigos embora tivessem personalidades bem diferentes. O velho Arthur era sem vergonha, gostava de sacanagem, e o velho Nestor era todo certinho, baixava logo a orelha quando a Dona Zilah fazia olhar de reprovação.

Seu Arthur tinha um ponto fraco, um vício, eram as mulheres de cor morena, as mulatas. Vivia dizendo que se pudesse ser alguém na vida queria nascer o Sargentelli. Seu Nestor reprovava o entra e sai de mulatas gostosas no apê do parceiro, achava safadeza, mas no fundo tinha mesmo era inveja. Dava pra ver em seu olhar que queria se esbaldar com a mulherada também, mas Dona Zilah o mataria. Todas as manhãs, depois de mais uma noite de ebórnia e orgia do amigo, seu Nestor já ficava na calçada esperando que seu Arthur viesse lhe contar com foi a putaria. A molecada da rua, contem comigo nessa, ficava de longe espiando para ver se arrancava algum detalhe do acontecido, e dar início aos devaneios pornográficos que ainda estavam longe de virar realidade. Quando conseguíamos algum detalhe da prosa com mais precisão, corríamos para contar tudo para o Antônio, o nosso jornaleiro. Ele gostava de saber de todos os ocorridos da rua, e como recompensa nos deixava folhear umas revistas suecas bem bacanas. As velhas que moravam na parte de cima da rua também queriam saber da vida ativa de meu velho vizinho, e para desespero delas nunca lhe contávamos nada, nada mesmo. A gurizada só pensava "naquilo", e idolatrava o Seu Arthur.

Certa manhã, fui ao bar do Secundino com meu pai, e escutei os dois conversando sobre mulheres. Estavam tramando algo. À tarde, quase noite, estava jogando bola na rua e seu Nestor puxou-me pelo braço para falar comigo reservadamente. O velho havia dito para a Dona Zilah que sairia com o intuito de jogar seu dominó noturno na Praça Afonso Pena (realmente fazia isso), e que desta vez demoraria um pouco mais, pois era campeonato ou algo assim. Qual era o meu papel na história? Ele queria que eu fosse ao seu apartamento para distrair sua mulher, dizendo-me que em hipótese alguma ela poderia aparecer na janela para dar-lhe o "té logo" de praxe. Em troca completou meu álbum da copa de 86, arrumando-me inclusive o Boniek, que era o mais impossível da época. O trato foi feito. Subi no 302 e atazanei a coitada e amável Dona Zilah, que pela primeira vez na vida não conseguiu acenar para o companheiro.

Só que em vez da inofensível pracinha, a turma da rua - que nesta altura só simulava a pelada - contou-me que o destino do seu Nestor foi mesmo o 102, no depravado apartamento de seu eterno amigo.

O que rolou lá dentro, meus caros, só posso imaginar. Seu Nestor deve ter aproveitado, pois sabíamos que uma das mulatas do seu Arthur já estava lá dentro. Na verdade, seu Arthur vivia cutucando o amigo certinho para pular a cerca uma vez que fosse, e um dia o saudoso Nestor não aguentou. O que sei é que o pau quebrou com a dona Zilah, porque pelo horário que seu marido chegou em casa o campeonato de dominó teria sido muito bom. Foi seu último campeonato também, já que a marcação ficou mais forte. Mas ele não se importou, a noite que tivera deve ter valido por todas futuras partidas que iria participar. Dona Zilah ficou um ano zangada comigo, sem me dar balas, e deixando que meu pai me desse cascudos à vontade. No ano de 87, depois de muito tempo do acontecido, resolveu reatar comigo, já que era como se fosse minha vó. Presenteou-me com um jogo de dominó com escudos de time de futebol que seu Nestor não usava simplesmente por não ter o do Bangu. Aliás, nem América e Botafogo, o que me deu a entender que deve ter sido adquirido em São Paulo.







É uma relíquia que tenho em casa guardada com carinho, e que me faz lembrar meus tempos de garoto. Nunca me esquecerei da dupla Arthur-Nestor.

Até.

14 Abril 2009

SEIS MESES LONGE DE CASA

O rótulo da cerveja Brahma que está da minha carteira (guardei de recordação) com uma data apontada no verso, indica-me que já se passam mais de seis meses sem por os pés no saudoso Rio-Brasília. A última garrafinha de cerveja que bebi por lá foi junto com meu amigo e também órfão do bar, Edu Goldenberg, que eternizou o momento aqui, no seu Buteco do Edu.

Muitos diziam que não iríamos conseguir deixar o botequim, chegaram até a apostar (mas não sei se pagaram a mesma), e entraram todos pelo cano. Depois da apunhalada nas costas que o Joaquim, dono do meu ex-preferido boteco, nos deu, não tive mais motivos para passar por ali. Minha tia que mora ao lado do extinto bar, coitada, deve ter recebido minha visita umas duas vezes neste meio ano que se passou.
No começo foi difícil, me sentia sem rumo por ter meu cotidiano assassinado de forma impetuosa, mas agradeço por morar na Tijuca. Boteco é o que não falta. Claro que sempre que passo por ali me dá aquele friozinho na barriga, uma pontinha de saudade, mas tudo isso passa rapidamente quando dou de cara com a bosta que o Joaca inventou. Um coisa que está muito, mas muito longe do que era o Rio-Brasília.

Aos poucos fomos nos aconchegando a outros belos bares da redondeza, e acho que estamos felizes. Não temos um bar somente, como era antes, mas posso afirmar que já somos muito bem-vindos, e nos sentimos em casa, em pelo menos três buracos etílico-tijucanos. E são nestes buracos, que para nossa surpresa, ou não, encontramos os ex-fregueses do falecido canto da Almirante Gavião.

É uma vida nova, e feliz, na Tijuca.

06 Abril 2009

E O GAÚCHO VOLTOU O MESMO

Há dois meses o Bar Gaúcho, que fica na esquina da Rua São José com Rodrigo Silva, fechou as portas para reforma. Coloquei aqui minha preocupação com a mesma, já que na maioria das vezes os bares voltam estragados depois de obras.

Na última sexta-feira soube pelo meu amigo Edu que o bar acabara de reabrir. Resolvemos então, no fim da tarde, nos encontrarmos por lá para conferir. Juntaram-se a nós o Leo Boechat, Hans e Zé Sergio. E posso afirmar que tive uma boa surpresa. O bar voltou como sempre, com os azulejos cafonas, com a antiga máquina de café Capital, e com a estufa cheia de empadas e linguiça.

O boteco estava completamente lotado, e lá pelas tantas caiu água pra cacete, fazendo com que parte da freguesia invadisse a Óticas do Povo para continuar bebendo sem pegar chuva.





















A conclusão é essa, meus caros, o Gaúcho continua como sempre, e voltou com a corda toda.

GIULITE COUTINHO

Faleceu ontem o grande benemérito do América Giulite Coutinho. Ele e toda sua imensa família são fanáticos torcedores do rubro da Tijuca. Em sua homenagem, nosso estádio, construído em 2001, foi batizado com seu nome.

A bandeira da Campos Sales está a meio-mastro.

Até.

02 Abril 2009

O ÚLTIMO GRITO DA SELEÇÃO

É difícil vermos um bar cheio, lotado então nem pensar, para assistirmos a seleção brasileira. É mais fácil vermos casa cheia para Resende e Macaé. Na Copa do Mundo a coisa ainda muda um pouco, mas não com o mesmo entusiasmo de outrora.

A escalação estava sempre na ponta da nossa língua, e não só em mundiais. Podiam ser eliminatórias, Copa América, amistoso, o raio que o parta, mas sabíamos os onze da linha mais os reservas. Depois que a seleção virou uma coisa chique, ficou uma merda. Mesmo às vezes apresentando bons jogos (também só pegam mamão), não chegam a nos maravilhar.

Aquela agonia de sair logo do trabalho, marcar no bar com a rapaziada para assistirmos as cores do nosso pavilhão serem defendidas, e torcer roendo as unhas... Isso não acontece mais. Para falar a verdade, às vezes nem sei quando tem jogo. Dos que vestem nossa camisa amarela, posso afirmar que se conheço meia dúzia é muito.

O ânimo dos noventa milhões que víamos durante as partidas acabou, agora só no canal 100. São poucos os que torcem, e os que fazem são de outra geração, uma geração que não sabe quem foi Garrincha, Didi, Gerson, Nilton Santos... Querem saber da Gmagazine do menino Kaká, dos cabelos do Luis Fabiano, de comprar camisas da nike de 200 pratas, e adoram o Galvão Bueno. É a era "fashion" da seleção canarinho.


Não Dá.

01 Abril 2009

O LIMÃO DO SIMÃO

Quando somos fregueses costumeiros de algum botequim, antes mesmo de entrarmos no local a nossa cerveja predileta já está nos esperando no balcão. São os pequenos mimos que recebemos por sermos bem chegados na casa.

Com os amigos à mesa a hora passa e nem percebemos, quando nos damos conta já está tarde pra cacete. É neste momento que saímos do transe em que o boteco nos deixa, e só aí percebemos que estamos mais pra lá de Bagdá, passamos da hora combinada com a patroa para o almoço de domingo... Então depois de meia caixa de saideiras levantamos a traseira da cadeira para partirmos para o nosso lar, e...

-Puta merda!!! Esqueci de comprar os limões que ela me pediu na feira! A minha digníssima vai me colocar na forca! O que faço agora? A feira terminou há horas!

Depois de toda essa agonia dividida aos prantos com toda a rapaziada do boteco, percebe-se que o bom e velho garçom, como num milagre divino, sai de trás do balcão com um saquinho de supermercado com três limões dentro.

Essa foi a salvação que livrou meu grande amigo Simas das chinelas de sua esposa, no último domingo, quando bebíamos depois de fazer a feira na Tijuca. Conosco estava outro grande amigo, Eduardo Goldenberg. É lógico que depois do acontecido vieram mais algumas geladas de saideira para comemorarmos.



Coisas da Tijuca.

Até.