Poema escrito por Neruda em protesto contra a guerra civil espanhola na década de 30. Faz tanto tempo...
Mas para nós, ainda parece útil...ODE SOLAR AO EXÉRCITO DO POVO
Pablo Neruda
Armas do povo! Aqui! A ameaça, o assédio
ainda derramam terra mesclada de morte,
áspera de aguilhões!
Saúde, saúde
saúde te dizem as mães do mundo,
as escolas te dizem saúde, os velhos carpinteiros,
Exército do povo, te dizem saúde com as espigas,
o leite, as batatas, o limão e o loureiro,
tudo o que é da terra e da boca
do homem.
Tudo, como um colar
de mãos, como uma
cintura palpitante, numa obstinação de relâmpagos,
tudo se prepara e converge para ti!
Dia de ferro,
azul fortificado!
Irmãos, adiante,
adiante pelas terras aradas,
adiante pela noite seca e sem sono, delirante e gasta,
adiante entre vides, pisando a cor fria das rochas,
saúde, saúde, sigam. Mais cortantes que a voz do
inverno,
mais sensíveis que a pálpebra, mais firmes que a ponta do
trovão,
pontuais como o rápido diamante, novamente
marciais,
guerreiros segundo a água de aço das terras do centro,
segundo a flor e o vinho, segundo o coração espiral da terra,
segundo as raízes de todas as folhas, de todas as
mercadorias fragrantes da terra.
Saúde, soldados, saúde, barbas ruivas,
saúde, trevos duros, saúde, povos detidos
na luz do relâmpago, saúde, saúde, saúde,
adiante, adiante, adiante, adiante,
sobre as minas, sobre os cemitérios, frente ao
abominável
apetite de morte, frente ao eriçado
terror dos traidores,
povo, povo eficaz com coração e fuzis,
com seu coração e fuzis, adiante.
Fotógrafos, mineiros, ferroviários, irmãos
do carvão e da pedra, parentes do martelo,
bosque, festa de alegres disparos, adiante,
guerrilheiros, chefes, sargentos, comissários políticos,
aviadores do povo, combatentes noturnos,
combatentes marítimos, adiante:
diante de vocês
não há mais do que uma mortal cadeia, buraco
de pescados mais podres: sempre adiante!
não há ali senão mortos, moribundos,
pântanos de terrível pus sangrento,
não há inimigos; pra frente, Espanha,
adiante, sinos populares,
adiante, regiões de maçãs,
adiante, estandarte de cereais,
adiante, gigantes de fogo,
porque na luta, na onda e na pradaria,
na montanha, no crepúsculo carregado de acre aroma,
levam um nascimento de permanência,
fio de difícil dureza.
Enquanto isso,
raiz e grinalda sobem do silêncio
para esperar a mineral vitória:
cada instrumento, cada roda rubra,
cada cabo de serra ou roda de arado,
cada extração do solo, cada sangue em tremor
quer seguir teus passos, Exército do povo:
tua luz organizada chega aos pobres homens
esquecidos, tua definida estrela
crava seus roucos raios contra a morte
e estabelece novos olhos de esperança.









