31 Maio 2007

ARMAZÉM SENADO - 100 ANOS

Conversando ontem com o Fernando, meu chapa e um dos donos de uma relíquia chamada Armazém Senado, tive a feliz notícia de que a festa em homenagem ao centenário da casa, eu disse CEM anos, será finalmente realizada em julho. Para quem não conhece, este canto nostálgico fica na esquina de Gomes Freire com Senado, bem no centro da cidade maravilhosa, e quando você entra é amor ao primeiro gole. Dentro deste pé direito de 6 metros você pode apreciar Brahma Extra, Bohemia, Original, Brahma... Sempre no calibre.



São vários os prazeres que logramos no local além de beber com os camaradas, listarei alguns:

- É muito bom debruçar os cotovelos no larguíssimo balcão de mármore enquanto se aprecia os velhos sobrados da área.

- Ficar olhando o velho Antônio, dono, do tempo do lá vai fumaça, pai de Henrique e Fernando, manusear os produtos do Armazém que são vendidos à granel só para o dia passar...

- Brincar com o eterno gato da casa, o bichano pede logo carinho quando você levanta o dedo por uma gelada.

- Conversar com os fregueses do bar também centenários. Saldanha, seu Orlando, tia Cida, tia Joana, o velho cantor. É cada causo de dar inveja do passado que não vivi.

- Ficar bebendo e olhando para os produtos que estão à venda e expostos naquelas imensas prateleiras: sandálias havaianas, caixas de maizena, potes de aveia, lustra móveis, um lustrador de pratas das antigas, latas de salsicha, macarrão, farinha, achocolatado Behring (o da caixa amarela), cachaça pra cacete, e várias outras miudezas que fogem-me da memória no momento. Ah, e sobre a porta do banheiro feminino repousa pendurado um serrote?!? Deve ser alguma mandinga...

- Se por acaso o lugar estiver cheio, ou se estiver vazio também, você pode ficar do lado dentro do balcão, sentado ou em pé.

- De comer não há variedade, praticamente frios, azeitonas de saquinho e tremoços. Delícia! Mas, se quiseres pode levar comida de casa, entrar na cozinha e fazer seu tira gosto sem problemas.

- Outra coisa importante é que o seu Antônio é América, tem até um relógio de parede em cima da porta da despensa.

- Todo o primeiro sábado do mês o Fernando coloca uma vitrola para que os fregueses levem seus discos e apreciem suas canções favoritas do passado.

Dando uma pausa nesta listagem aproveito para ressaltar este último item. Muitos sabem que coleciono lps, e por isso sempre estou neste sábado no Armazém. Quando eu chego com minha bolsa de vinis os coroas hurram de alegria. É um imenso benefício para o meu interior fazer com que aquelas pessoas se relembrem das velhas canções, teve gente que já pediu para que eu parasse pois era muito para seu coração. É Cartola, Vinicius, Altemar Dutra, Dolores, Dalva, Noel, Jamela, Nelson Gonçalves (com este o pessoal pira), Moreira da Silva, Anísio Silva, Nelson Cavaquinho, Baden, Paulinho da Viola, Geraldo Pereira... E por aí vai.



Um dia estávamos preparando a vitrola e chegou um senhor negro meio cabisbaixo, pousou-se no balcão e pediu sua cerveja. Após a música começar, puxei uma prosa com ele, seu Abreu, gente finíssima. Estava com problemas em casa e faria aquela parada no bar antes de almoçar com sua irmã como combinado. Em certo momento, aquele homem percebeu que estava sendo querido por pessoas que nunca tinha visto em sua longa vida. Interagiu conosco, abriu um sorriso e disse-me:

- Vocês estão me fazendo lembrar da felicidade por um instante...

Bicho, deu aquele nó na garganta, foi foda. Mas ao mesmo tempo pensei comigo que é por isso que estes lugares existem, para unir pessoas que precisam de outras, gerando assim este sentimento de afeto que está cada vez mais raro, porém sempre encontrado nos verdadeiros botequins. Parte dessa nossa cultura que estão querendo acabar... Coisa da "canalha" como diz o Edu.

Quando a voz de Jamelão bradou pelas humildes caixas de som do local, seu Abreu deu um pulo surpreso e voltou-me com mais palavras:

- Assim já é demais, faz tempo que não ouço Jamelão, já toquei pandeiro com ele em décadas passadas, adoro sua voz.

Em seguida pegou seu telefone para uma ligação, ele simplesmente cancelou o almoço com a irmã e pediu uma porção de mortadela para o Henrique, e ainda dividiu com os novos companheiros. É ou não é único este momento?



No dia da celebração do centenário, um grupo de samba de raíz de amigos da casa vai tocar, eu vou estar presente, assim como várias figuras amantes deste local e destes costumes. Convidei o trio de camaradas Edu Goldemberg , Szegeri, e Simas, que disseram que aparecerão por lá, e uma turma da antiga rádio Nacional também vai.

Será um momento de resistência para nossa cidade cada vez mais abandonada, assim que souber a data precisa estarei informando. Quem puder apareça por lá.

Abraço.

28 Maio 2007

CANECÃO APRESENTA MAYSA


Dando continuidade à série BOLACHA DA VEZ, venho hoje recomendar um pouco de melancolia para que se desfrute acompanhado de uma garrafa de 12 anos. Uma creio que é pouco. Este lp de Maysa, a inigualável e perfeita voz que caracteriza o sofrimento, é uma marco para nossa rica música, e a cada canção que se passa pela vitrola, mais curvados ficamos em direção ao fundo do poço.

Ao vivo no legendário Canecão em 1969, e gravado pelo selo Copacabana, o disco registra o bonito momento da noite de poucos afortunados, que puderam sentir uma cantora expressar sua sincera lamúria. A gravação não é das melhores, mas a voz de Maysa esconde qualquer defeito.

Há 30 anos ela partia para o mundo que desejava, deixando conosco seu trabalho para que possamos chorar e sentir que o amanhã será o nosso último dia.

faixas:

Demais
Meu mundo caiu
Preciso aprender a ser só
Pra quem não quiser ouvir meu canto
Por causa de você
Dindi
Se você pensa
Ne me quitte pas
Light my fire
Chão de estrelas
Tarde triste
Meu mundo caiu
Ouça
Eu e a brisa
Dia de vitória
Dia das flores
Se todos fossem iguais a você


Maltrate seu coração apreciando Ne me quitte pas:



25 Maio 2007

CABRA DA PESTE

Há três anos um cabra da peste da gota serena partia para outro lugar. Meu querido avô e padrinho José, o seu Zé, era de Iracema, sertão do Ceará. Contava-me vários causos do lugar, da época do cangaço, e de quando era craque em pegar boi do mato no laço. Disse que quando criança viu Lampião e seu bando passando pelo lugar.

Seu inseparável radinho de 1962, que comprou em um navio quando trabalhava no cais do porto está hoje comigo como lembrança, e suas peixeiras tamém. Ele era um cara disciplinado, que amava sua família, marrento, pois não tinha tempo ruim pra ele, e muito religioso também.

Por isso, deixo hoje esta imagem de seu querido padre Cícero, para que o proteja onde estiver, e a todos nós, que ainda andamos por aí...



Pessoal, estou viajando para dar uma refrescada na cuca, mas volto no fim de domingo para ver o jogo no Joaquim.

Até.

QUE BOSTA É ESSA...




Realmente o fim dos tempos está por vir.


Laptop Violão, que merda será isto?


Está escrito que é de graça, mas com esse nome não vou nem que paguem. E ainda está na página de eventos do Rio Show de hoje. Lástima! Tomara que chova pra cacete para este troço cancelar novamente.


Ah, se alguém souber o que é poupe seu tempo, pois não quero saber do que se trata.


Até.

24 Maio 2007

LUTEMOS PELO NOSSO

No passado dia 17 comemorou-se o dia das letras galegas, língua falada na região da Galicia, Espanha, que divide origem, características e histórias com o nosso português. Três importantes escritores e membros da Real Academia Galega, juntos de seus séquitos, declararam em 1963, que esta importante data fosse comemorada todos os anos. Manuel Gómez Román, Xurxo Ferro Couselo, e Francisco Fernandez del Riego escolheram este dia pois se tratava na época do centenário do "CANTARES GALLEGOS", livro que é até hoje considerado a obra maestra da literatura galega, escrito pela máxima Rosalía de Castro em 1863.

O meu poeta, escritor e desenhista galego preferido chama-se Castelao, nascido em 1886 em Rianxo. Formou-se em medicina, mas já garoto mostrava paixão pela arte, e desde então escrevia e fazia caricaturas para revistas locais. Nos anos 20, Castelao já era considerado um dos maiores defensores da arte galega. Entrou para a política para defender a cultura de seu povo, mas com a vitória de Franco na guerra civil espanhola de 1936, teve que exilar-se, e a língua galega foi proibida de ser falada na Espanha.

Os galegos foram sempre um dos povos mais sofridos da nação espanhola, por ter os campesinos como a maioria de sua população, e todo mundo sabe que esse pessoal não tem vez mesmo. Na época da ditadura franquista, viram suas já difíceis vidas piorarem cada vez mais, e seus costumes minguarem, já que o ensino nas escolas e os meios de comunicação somente usavam o castelhano como veículo de expressão. Quando a Editorial Galaxia foi fundada em 1950 a situação começou a mudar, pois foram resgatados e publicados vários livros com a língua galega. Castelao voltou para sua terra onde continuou lutando pela identidade da mesma até a hora de sua morte. Em 1983 o galego foi oficialmente declarado língua, deixando de ser um simples dialeto.

Meu falecido pai era imigrante deste lugar assim como meus tios, e todos passaram fome quando pequenos, mas conseguiram vencer unidos. Cansei de ver meu pai com os olhos cheios de lágrimas ao ouvir canções tradicionais galegas, já que em sua maioria as letras falam do banzo, "morriña" em galego, do sofrimento dos camponeses, e dos pescadores que vão ao mar e não voltam mais. Cresci absorvendo este sentimento e entendendo aos poucos porque aquilo emocionava meu velho, e me apaixonei por tudo isso. Morei uma época na Galicia para me aproximar do que pertencia somente ao meu imaginário, aprendi muita coisa, falo um galego fluente, e hoje sou eu que choro ao ouvir as velhas canções.

A nossa rica cultura brasileira também perdeu imensamente com esta ditadura filha da puta que tivemos, e muitos calaram-se contra vontade. E hoje também vivemos uma ditadura em que nossa plebe é obrigada a assistir merda atrás de merda na que chamo desgraça do mundo, a televisão. E como não temos educação neste país, somos facilmente doutrinados pelos grandes ditadores da mídia atual, vocês sabem de quem falo, a adorar o que não é nosso, até que um dia o verdadeiro nosso morrerá no esquecimento. Ainda tenho esperança que podemos reverter pelo menos um pouquinho esta situação, mas com força e grito, falando o que deve ser falado. Vestir-se de branco e dar um abraço na lagoa não adiantará porra nenhuma.

Lutemos pelo nosso folclore e cultura.

Viva a minha GALICIA e viva o meu BRASIL.


Deixo com vocês duas caricaturas em forma de protesto de meu querido Castelao.



lê-se: As sardiñas volverian se os gobernos quisesen


lê-se: Os esclavos do fisco.

21 Maio 2007

MOMENTOS DO DOMINGO

Era para ser mais um fim de domingo qualquer, daqueles que você já fica pensando no trabalho do dia seguinte. Mas existe uma frase que sempre digo: "Os melhores momentos da vida acontecem por acaso", e ontem fui contemplado por um destes momentos, que guardarei comigo até minha memória permitir. Já pela manhã tive a honra de sem presenteado pelo Joaquim com uma camisa do Rio-Brasília, para usá-la em momentos especiais, como ir ao bar ou a feira... Voltei à tarde com a Heloisa e com meu tio para comer uma feijoada, e ali combinamos que veríamos naquela mesma mesa o gol mil do gênio da área na hora da Ave Maria.



O manto


Estava feliz da vida, aliás, como fico feliz quando passo o domingo no Joaquim, falo sempre para minha mulher que é o melhor passeio do fim de semana.

Após uma pequena cesta, fiz um cafezinho para beber com a Heloisa, que logo depois teve que ir embora não podendo nos acompanhar e assistir a partida. Eu e meu tio fomos então para o boteco e chegando lá fiquei surpreso ao ver Eduardo Goldenberg, flamenguista doente, sentado à mesa apreciando um maracujá e aguardando a entrada de Romário em campo. Nos unimos mais uma vez naquele maravilhoso recanto da Tijuca para desfrutar de um dos maiores prazeres da vida, jogar conversa fora entre amigos, e num bar. Pouco depois chegou um camarada do Edu que me foi apresentado, Simas, gente finíssima, botafoguense, professor de história, e conhecedor de cachaça. Contou-me de suas andanças por este mundo, dos tempos em que passou por Cuba, Itália e pela África, fiquei encantado com as coisas que me disse sobre Senegal, quem sabe um dia passo por lá... Minutos depois, e sua amiga juntaram-se a nós.

Goldenberg veio hidratado de casa, tinha bebido umas doses de uísque, mas como seu corpo pedia mais, estava com dois copos da mão, um com Brahma e outro com maracujá. Isso nos fez entrar em uma prosa sobre cachaça, e fiquei sabendo que Simas tem umas 80 garrafas em sua casa. Lembrei-me prontamente de minha preferida, a Palmelinha, da cidade da Heloisa, Varginha. Perguntei a Simas se gostaria de apreciá-la, e nem sei porque perguntei se já sabia a resposta. Pedi permissão ao Joaquim para trazer a bebida de casa e ele disse que beberia também. Em questão de 5 minutos estava eu de volta com duas cachaças, a Palmelinha e a Mercedes, de Goiás, trouxe também copinhos e cabaças para o ritual. Ao ver aquilo tudo, Edu somente riu. E Simas já foi enchendo o copo, e depois da primeira golada fez cara de aprovação, creio que gostou. E em 30 minutos, a garrafa de Palmelinha que estava acima da metade já se encontrava vazia. Por fim chegou a Dani, mulher do Edu, com o simpático cachorro Pepperoni, a tempo ainda de assistir a morte da Mercedes, que também estava pela metade.

E houve o momento dos telefonemas, Eduardo ligou mais de uma vez para o Szegeri, que teve que falar com todos da mesa por várias vezes, Zé preto também foi importunado, e até a Heloisa que falava comigo teve que conhecer o pessoal via celular.

Histórias foram contadas, sinceras e enormes gargalhadas foram doadas, o hino de Portugal foi lindamente declamado, o milésimo gol foi arrebatado, corpos foram hidratados, e pessoas tiveram um fim de domingo feliz, sem regras ou padrões, em um minúsculo espaço da Tijuca, Zona Norte...

20 Maio 2007

FERNANDO E PEREGRINOS DO BLUES

Existem pessoas que são fundamentais para que determinada coisa aconteça, Fernando, meu camarada do Bico Doce, é uma delas. Ele estava afastado da casa há uns três meses, e as noites de sexta não eram as mesmas desde então. Ontem quando entrei na uisqueria, para minha surpresa e felicidade, ele estava sentado à mesa conversando com o pessoal. Ao me ver, levantou-se prontamente e me abraçou de forma calorosa:

- Grande Felipe!!! Estava pensando hoje em você e agora te vejo pessoalmente. Temos que voltar a fazer um som.


Eu e Fernando

Peguei um copo de uisque e sentei para ouvi-lo tocar Robertão. Bem que poderia estar com meu cajon para tocarmos juntos. Mas o importante é que agora ele está de volta, e a música no Bico Doce voltará também. Declamaram-se poesias, canções foram cantadas, e sentimentos foram expostos de forma verdadeira, em um lugar onde os amigos se unem à tempos para desfrutarem juntos destes prazeres. Não é por acaso que o bar está desde 1895 dando emoções para seus frequentadores, algo há de especial naquele velho canto do centro de nossa cidade.

Quando acabara de pedir outro scotch, chegou meu grande amigo Marcus Vinicius, eu já o esperava. Marcamos ali no Bico para depois partirmos para a Banca do blues, lugar que ele queria me levar. Eu e o Vinicius somos os peregrinos do blues, por sempre estarmos juntos em busca dos concertos que rolam por aí. Já fomos em inúmeros e temos várias histórias para contar.

Me despedi do pessoal da casa, e parti andando para a banca com meu velho camarada. Uma pequena multidão tomava conta das esquinas da Rio Branco com Presidente Wilson, ao redor da banca. O blues já comia solto com a banda "Destilaria", um trio que tocou até Freddie king. A noite estava maravilhosa, com um temperatura muito agradável, ajudando a criar um clima muito bom entre as pessoas que estavam espalhadas ali. Gostei muito da idéia e sempre que puder marcarei presença.


Eu e Vinicius


Fiquei muito feliz de reencontrar estes companheiros velhos de guerra. Grande abraço para os dois, e que possamos repetir a dose em breve.

Até.

14 Maio 2007

A VOLTA

Neste sábado tive o prazer de comparecer ao primeiro Rio sabor Cachaça no armazém 6 da Zona portuária. Como tinha três convites, que minha prima Isabella me conseguiu por trabalhar no evento, levei a Heloisa e meu camarada Darcy. Cheguei no começo da tarde pois não queria pegar o tumulto do Cordão do Boitatá à noite, e fiz o certo. Poucas pessoas estavam no local tornando a degustação mais tranquila e sem disputas. O galpão tinha menos estandes do que esperava mas foi suficiente para conhecer muitas cachaças de todos os aromas, sabores e partes do Brasil. Eu e Darcy provamos várias caninhas em um estande de provas, mas uma em particular me encantou, a cachaça Seleta, da região de Salinas - MG. Não tinha como voltar pra casa sem uma garrafa.


O restaurante Petisco da Vila também estava expondo, já que entrou pesado no ramo desta bebida maravilhosa. Isabella, que trabalha no Petisco, me deixou apreciar um pouco de uma envelhecida em barris de carvalho e achei muito boa. Um começo de tarde feliz em um lugar maravilhoso, que tinha uma linda vista para a baía de Guanabara.




Ficamos lá durante umas duas horas e partimos pra minha casa, mas antes ainda compramos um vinho chileno e algo para comer. Aguardávamos o André também, para formarmos então o trios das noites de som. Eu, Darcy e André, já fizemos vários encontros jogando conversa fora e viajando com os sons da vitrola, mas estávamos uns 5 meses afastados por circunstâncias da vida.
Minha maravilhosa mulher também estava, para preparar os quitutes e curtir a música também.

Em todos estes encontros coloco vários estilos musicais diferentes, mas sempre de qualidade e de acordo com a emoção do pessoal. O Darcy por exemplo, é uma cara que pira com música celta, isto nunca pode faltar. Aliás, falarei um pouco desse cara. O conheço há uns 4 anos por meio do meio cunhado André. É uma pessoa muito sensível, doido, inteligente, e cheio de trocadilhos. Além disso trabalha com uma coisa que praticamente está extinta, faz bonecos de chumbo! Um mais bonito que o outro, tem colecionadores de todo o Brasil que o procuram pela perfeição de suas peças. Quem estiver interessado é só me falar que dou o telefone dele, é um presente legal e diferente.

Neste sábado ataquei de jazz, muito jazz, com isso tivemos que abrir a garrafa de Seleta, o André bebeu o vinho com o Darcy, e pra finalizar uísque. Era Chet Baker, Alberta Hunter, Ella Fitzgerald, Count Basie, Oscar Peterson, Sinatra... Rolou até um vinil russo que tenho com a Orquestra Filarmônica de Leningrado tocando Prokofiev, um espetáculo. Conversamos sobre várias coisas, mas a principal foi história, tema que adoramos discutir e tirar conclusões. O papo foi de Tiradentes aos Visigodos.




Depois dessa volta sem adjetivos, o André foi embora e o Darcy dormiu aqui em casa mesmo. Terminamos mais um dia certos de que logo outros virão, e regados a som e cachaça...

Até.

11 Maio 2007

MINHA NOVA CRIANÇA

Em 1959 minha mãe tinha 3 anos, os americanos dominavam o Alasca, começava a revolução cubana, e nascia também a minha mais nova companheira, que vive comigo desde sábado. Falo da querida vitrola valvulada Philips, pouca foram fabricadas, uma raridade que toca vinis de 78 rotações e ainda por cima você pode empilhar os discos enquanto o outro toca, e logo depois eles vão caindo e reproduzindo as canções automaticamente... É alta tecnologia, e te garanto que não quebra igual a estas merdas de tocadores de mp3. Sem falar do som, só ouvido para perceber a qualidade única de um aparelho à válvulas.

Sábado à tarde fui com meu cunhado André ao Armazém Senado, pra variar, pois era o dia da tarde do vinil. Chegando lá, com os meus debaixo do braço, fomos surpreendidos por um defeito na vitrola do Armazém, e sendo assim, nada de música. Tomamos duas cervejas e decidimos dar uma volta na feira do Rio antigo da Rua do Lavradio. Estava rolando um chorinho ao vivo bem bacana, e a feira com muita gente, cheia de vida e coisas interessantes para olharmos. Ainda por cima encontramos nosso camarada Darcy, que iniciou um agradável passeio conosco. Antes um pouco antes de chegar a esquina com a av. Men de Sá, me deparei com esta maravilha de 1959 em uma barraca. Puxei o André pelo braço e falei:

- Meu irmão, dá uma olhada naquilo!

Ele riu pra mim já sabendo que ficara louco pela vitrola. Estava olhando e muitas pessoas também, inclusive fotografando, até que a moça da barraca me conheceu:

- Você não é o Felipe? Aquele que compra discos na barraca do meu marido na Rua dos Inválidos, o Reinaldo?

- Exatamente. Não sabia que a senhora era a esposa dele.

- Sou sim, e ele está vindo aí. Você gostou da vitrola né? Se quiser levar separo pra você, e pode pagar na segunda.

- Ainda estou meio na dúvida. Vou dar uma andada para pensar e depois volto para falar com o Reinaldo.

Essas titubiadas que são foda. Já deixei de comprar muito disco raro por causa dessa porra, deixo pra depois e quando volto alguém já levou. Fiquei conversando com o André para ver o que achava e ele disse:

- Leva logo cara, você é maluco por essas coisas mesmo. Eu compraria sem pensar, depois vai se arrepender...

Nessa hora eu gelei e entrei e desespero:

- Vou pegar a grana no banco e vamos voltar logo, tomara que alguém não tenha comprado.

Reinaldo já estava lá, e ela também, ainda órfã. Me senti um pai quando reencontra seu filho perdido, que felicidade. Fechei negócio com Reinaldo e levamos a criança ao Armazém, para que pudesse ser testada e para podermos continuar com a tarde do vinil. Todos ficaram olhando com ares de passado, a coroada ficou doida e eu muito feliz com tudo aquilo. Botei logo um Nelson Cavaquinho e depois um Robertão das antigas.





Fiz um filminho dela e coloquei no Youtube para quem quiser dar uma olhada, é so clicar aí em cima. Agora ela está aqui do meu lado me dando alegria em troca de carinho e cuidado. Ainda bem que a Heloisa entende e não fica com ciúmes. Quem quiser visitá-la pode dar uma passada aqui em casa.

Até a próxima.

VIVA ELIZETH CARDOSO

Dj janot. Quem é este cidadão perante Elizeth Cardoso?

Marcelo D2, que acha que conhece de música, colocou a voz, eu disse A VOZ, de nossa Elizeth na música "É preciso lutar" de seu disco, totalmente distorcia. O neto da cantora Paulo Cesar, abriu uma queixa na delegacia contra esse mané alegando o desrespeito com sua avó. Elizeth Cardoso é uma das maiores cantoras da história de nossa música, gravou vários discos para que possamos apreciar o timbre de sua voz. Aí vem uma cara ignorante e sacaneia esta voz maravilhosa com estes aparelhos modernos que estragam as músicas. Tomara que o obriguem a pagar uma multa bem grande ou algo parecido. Foda-se, tem que aprender a respeitar as pessoas sim.

Aí, fora da conversa, aparece uma pessoa mais babaca ainda, dj janot, e diz que o D2 tá certo:

- Esse som faz o maior sucesso nas boates, e faz com que Elizeth fique viva nas pistas...



E desde quando ela precisa fazer sucesso nas pistas? Elizeth está muito acima das pistas e do tal janot, sua arte tem que ficar longe desse meio mesmo. Esse pessoal tem que tomar vergonha na cara e estudar um pouco de música antes falar alguma coisa, e ainda por cima trabalhar no ramo e sair falando e fazendo besteira por aí.

03 Maio 2007

SAMBA NA MADRUGADA

Desta estupenda parceria nasceu um dos melhores discos de nossa história. Samba na Madrugada é de 1966 e foi gravado pela RGE. Elton de Medeiros na caixa de fósforos e Paulinho da Viola, estão acompanhados de um time de primeira: Raul de Barros no trombone, Dino e Meira nos violões, Canhoto no cavaquinho, Copinha na flauta, Gilberto Luna e Jorge no ritmo. Sintam o naipe da rapaziada!




Elton de Medeiros, teve o privilégio de educar-se ouvindo músicas da melhor qualidade, já que seu pai Luiz Antonio medeiros, fazia parte de ranchos de carnaval. Conheceu cedo também, o mundo das escolas de samba e nelas aprendeu todos seus encantos, transformando esse sentimento em lindas canções e numa excelente poética. Já Paulinho, vinha percorrendo os mesmos caminhos e também se notabilizava. A convite de Hermínio Bello de Carvalho participaram do espetáculo Rosa de Ouro, depois já integrantes do conjunto A Voz do Morro gravaram alguns discos e por fim dividiram o LP SAMBA NA MADRUGADA, apresentando lindas canções, algumas em parceria com Cartola, Zé Kéti, Mauro Duarte, Candeia, Casquinha e Hermínio Bello de Carvalho.


Mais um disco que combina perfeitamente à beira de um balcão de um botequim, são cãnções que lembram velhos tempos. As minhas preferidas são "Arvoredo" e "Momento de fraqueza" de Paulinho da Viola, e "Sofreguidão" e "Perfeito amor" de Elton de Medeiros. Vamos então para as faixas:

Arvoredo
Maioria sem nenhum
14 anos
Sofreguidão
Momento de fraqueza
Minha confissão
Perfeito amor
Mascarada
Minhas madrugadas
Injúria
Recado
O sol nascerá
Jurar com lágrimas
Rosas de ouro
Depois de tanto amor
Samba original
Alô Alô
Sol da manhã

Para apreciar "Momento de fraqueza", clique
aqui.

01 Maio 2007

O FÍGADO DO JOAQUIM

Domingo, Flamengo e Botafogo jogando na televisão, e eu com minha camisa do América de 1960 sentado à mesa do bar do Joaquim juntamente ao meu tio-pai Celestino e meu irmão Zé. Eu e meu tio estávamos tranquilos, já o Zé... Flamenguista doente, sofria com a pressão inicial da equipe alvinegra. Um pouco depois chegava Edu Goldemberg, fantasiado da cabeça aos pés de vermelho e preto, fiz até o sinal da cruz. Sentou-se conosco e começamos todos a beber juntos, pedimos pastéis e uma porção de radaba com agrião. Meu corpo não estava satisfeito, e foi então que decidi pedir o manjar dos deuses: Uma porção de iscas de fígado acebolado com batatas coradas!!! Foi só vir pra mesa que todos começaram a desejar aquele prato maravilhoso, depois desta vieram mais umas três porções.

Estava conosco também o pessoal do Inimigos do batente, um excelente grupo paulista de samba de raiz, que degustaram e ficaram maravilhados com a iguaria. Zézin e Edu arrancavam os restos de seus cabelos em prol da batalha que se realizava no templo Maracanã. Até que o Zé foi ao banheiro e o Botafogo abriu o marcador. Foi uma gritaria geral:

- Filho da puta! Quem mandou se levantar para ir ao banheiro!

- Tava apertado, mas prometo que mijo nas calças da próxima vez...

Não adiantou muito, o time preto e branco ampliou o placar logo depois, mesmo sem banheiro. Todos ficaram desolados e ao mesmo tempo putos da vida, vendo o urubu perdendo daquele jeito ainda na primeira etapa. E foram-se mais garrafas de Boemia e Brahma, e também começaram a chegar alguns maracujás.

No segunda tempo foi um pega pra capar, roeram-se unhas, bateu-se na mesa, gritos e xingamentos saíram de bocas rubro-negras. Mas por pouco tempo. Na hora do penal, urraram como animais e não olharam para a tela na hora do tiro ao gol, somente quando escutaram que a bola tinha estufado a rede. E quando o empate aconteceu a felicidade dos flamenguistas foi geral, eu continuei na mesma, bebendo minha cerva e de barriga cheia, mas agora com amigos mais felizes.

Saímos dali para comemorar o aniversário do Edu no Trapiche Gamboa, com o grupo Inimigos do Batente e canja de Dorina e Beth Carvalho. E desta vez para hidratar, bebíamos Original. Aproveito aqui para recomendar a casa. O Trapihe é um casarão na Gamboa com um pé direito de 13 metros de altura e datado de 1867... Não preciso falar mais nada, foi mais um dia com ar de antigamente.

Até.