30 Março 2007

FERINDO A CULTURA

Informal, Manoel e Juaquim, Belmonte... Quem deu uma olhada no caderno Rio Show do jornal O Globo pôde conferir a matéria, com direito a capa, do que o repórter Jefferson Lessa chama de "boteco limpinho" e seus filhotes. A reportagem é claro, fere os princípios da cultura carioca e agride o conhecimento dos admiradores e verdadeiros cariocas que frequentam os característicos pés-sujos de nossa cidade.

O tal do Antonio's e o metido a besta Codajás são do dono do Belmonte, o Jiló do cara do Informal, fica no Leblon, parece até cenário de novela, um nojo, tem o Armazém Carioca que é do sócio do Manoel e Joaquim... Chega de lixo! Não podemos deixar que a identidade boêmia de nosso povo seja manchada por estes lugares que se dizem tradicionais e fedem a perfume.




Outro dia ao sair do Alemão (Bar Brasil), percebi um movimento na esquina e me deparei com o Antonio's, não consegui nem andar pela calçada, aquela porra me dá alergia. Lá pelas bandas das novelas das oito da Grobo, o Lebron, já não vou há muito tempo, e quando for não quero passar nem perto destes cantos cheios de papagaiadas. São frequentados por pessoas que não gostam e não conhecem o mínimo da história de nossa cidade, uma vergonha darem valor a lugares tão sem graça e sem nenhum sentimento, isso SENTIMENTO. Essas mesmas pessoas nunca fizeram amigos em verdadeiros botecos, e nunca se emocionaram a ponto de chorar com conversas à beira do balcão com alguem que acabou de conhecer.

A vida é assim, o Rio é e sempre foi assim. Já dizia Vinicius de Moraes em uma de suas célebres frases:

- Nunca fiz amigos em leiteria...

A tradição do nosso Rio e de nossos cariocas de verdade estão espalhados por aí, em vários lindos e queridos bares:

Bar do Joaquim (Rio Brasília), Bar do Momo, bar Afonso Pena, Salete, Armazém Senado, Alemão, Capela, Cosmopolita, Lisboeta, Capitania dos Copos, Goiabeira, Columbia, Bar Luis, Bar Urca, Gracioso, Bar dos passarinhos, Bar do Odilo... e muitos outros que já tive o prazer de me deliciar mas que os nomes me escapam por um momento.

Parece que os paulistas estão invadindo a cidade e corroendo nossas tradições. Que estas bostas fiquem por lá! Viva a Lapa, a Praça Mauá, Praça XV, o Centro, a Zona Portuária, a Zona Norte, o Subúrbio. Viva nossa rica história, nosso samba, eu disse NOSSO, e enfim nossos botequins.

Fora a estes bares de merda que medram como metástase no Rio de Janeiro.

Me desculpem pelo desabafo.
Até.

25 Março 2007

FESTA DOIDA

Barbárie total! Essa família é muito louca mesmo. Que festa doida rolou ontem na comemoração do aniversário da Tia Lola, parecia coisa de filme. Foi como o de sempre, todos unidos, contentes e dançando, novos e velhos, Salgados e Quintans.

A cerca de um mês antes do evento, minha prima Paula espalhou para todos que iria ser uma espécie de dj, manja a responsabilidade. Como eu já amo música, duas semanas antes começei a escolher o repertório. Olha daqui, olha dali... Até que falei comigo:

- O ideal era que tivesse uma vitrola, tenho muito material em vinil...

Então resolvi ligar para Paula e explicar a situação e decidirmos que som levaríamos. Ficou combinado que ela pediria para o tio Benjamin trazer o aparelho de som da casa de Saquarema. Beleza. Continuei a olhar os discos, mas agora pensando em vinis e cds, e a cada momento fui me empolgando mais, até que tive outra e idéia e liguei para a Paula novamente:

- Paula, sou eu de novo...

- Fala.

- Você quer que a música da festa seja legal mesmo? Quero dizer, que role direto e que as pessoas dancem sem parar?

- Exatamente isso, como se fosse discoteca.

- Então acho que seria melhor alugarmos um som profissa...

Disse à ela que conhecia um cara, o Ronaldo, que poderia nos alugar o som e ela aceitou na hora com entusiasmo. Ronaldo é uma camarada que coloca essa aparelhagem em algumas boates do Rio, e é roadie do Ed Motta. Depois de acertado, me comprometi com a Paula que o repertório seria o melhor possível, já que estrutura não faltaria.

No dia "D", já estava com tudo pronto, meu estojo com os cds e minha maleta com os vinis, além do meu fone de ouvido e meu toca-discos que tive que levar. Marquei com o Ronaldo às 18 horas, mas ele chegou às 19, tinha esquecido o aparelho de cd na Casa Rosa. Subimos para o salão e rapidamente ele montou e testou o som, a partir daí a parada era comigo.




Começei com Sinatra e uns boleros, mas a coroada não se animou muito de inicio. Logo resolvi botar o pessoal para dançar colocando as músicas animadas, e a pista ficou cheia a noite toda. Enquanto isso o povo entornava cerveja... Lá pelas 23 horas, anunciaram o parabéns. Quando todos estavam no salão, peguei o microfone e falei:

- Antes de cartarmos para aniversariante quero ver quem sabe dançar música russa!

E soltei um vinil do Casatschok de Moscou, que estava na agulha. Foi muito engraçado, parecia que alguém ligou a tomada e todos começaram e pular e bater as pernas frenéticamente entrando na onda do som.




Antes de acabar a festa ainda rolou um rock 70 porque ninguém é de ferro. Hoje pela manhã o Ronaldo passou para pegar o som. Todos gostaram das músicas, que bom. A cada dia que passa me surpreendo mais com minha família, não pode-se duvidar de nada.

Até.

17 Março 2007

NOITADA DE JAZZ

Uísque, era o que desejava eu e meu cunhado André durante o concerto de ontem. O Mistura Fina fechou um acordo com a Sala Cecília Meireles para que seus concertos internacionais sejam realizados na casa da Lapa. E iniciaram muito bem. Terence Blanchard, 45 anos, trompetista de Nova Orleans, eleito duas vezes o melhor do mundo. Terence além de jazz faz trilhas para filmes do Spike Lee, é considerado o melhor da nova geração. Quando ainda era moleque, o consagrado baterista Art Barkley o convidou para tocar em sua banda, dando inicio ao seu reconhecimento de hoje.

A noite de ontem começou no Alemão (Bar Brasil) com algumas caldeiretas e uma comida maravilhosa. Eu e André conversávamos sobre a história dos bares da Lapa e de como se abre lixo hoje em dia. Aquele tal de Antonio's que abriu na esquina da Lavradio com Men de Sá... Só podia ser do dono do Belmonte, uma merda que contraria a tradição e boemia carioca. Sem falar no resto que está espalhado por ali.

Saindo daquele patrimônio carioca, nos direcionamos à sala Cecília Meireles, casa que de longe percebemos que estaria cheia. Já estávamos com os ingressos na mão, já que eu tinha ido no dia anterior por eles, ainda bem, pois se esgotaram na hora. Isso é prova de que o nosso povo também gosta de música boa, sendo assim, os bons músicos deste país deveriam ter maior incentivo, para que não fiquemos limitados a estes bostas que imperam no cenário atual. São pucos os nossos músicos de qualidade que tem seu reconhecimento merecido.

Sentados em nossas cadeiras, ficamos admirando o local antes do inicio do espetáculo. Apagaram-se as luzes, nosso olhares voltados para o palco, e a banda entrou, com simplicidade agarraram seus instrumentos e... Foi foda. A primeira nota do trompete já fez com que falássemos:

- Que que é isso...

Terence Blanchard (trompete), Fabian Almazan, cubano (piano), Derrick Hodge (contrabaixo), e Kendrick Scott (bateria), harmonia total, uma incrível sensibilidade nas músicas, domínio completos dos instrumentos. Foram quase duas horas de concerto e apenas cinco músicas, todas enormes e muito doidas, do jeito que eu gosto. Elas iniciam com um tema e depois cada músico parte para sua viajem individual, e na parte final o tema principal retorna e a canção se acaba.

Terence Blanchard

Saímos dali de alma lavada, impressionados e exaltados com o que vimos. A banda saiu aplaudida de pé. Todas as pessoas ficaram comentando no saguão da sala sobre a maravilha que tinham visto. Ficamos um pouco por ali e ainda vimos o professor de trompete do André.

Ainda bem que não perdi este acontecimento, ficaria arrependido, só faltou o uísque.




13 Março 2007

PEDALADAS PELA HISTÓRIA

Como já é de conhecimento de meus achegados, adoro pedalar, e pedalar pela nossa cidade, por bastante tempo. Conheço detalhes de vários bairros com ajuda da minha caloi 10 ano 1979, meu transporte preferido, aliás, o nosso povo deveria ser incentivado a andar sobre duas rodas e o Rio ter uma estrutura decente para os ciclistas. O canto de minha preferência para se explorar nessas andanças é o centro e suas cercanias: Castelo, Central, Praça Mauá, Praça XV, Gamboa, Saúde, Santo Cristo. O mapa de ruas e becos destes lugares está na minha cabeça de tanto que ando por ali, são lugares ricos em detalhes e história. Saio sempre bem cedo, paro em uma padaria para beber uma vitamina e continuo a jornada. Durante o passeio, são tantos os locais encantadores, que às vezes tenho que dar uma parada para tomar uma cerva em algum boteco antigo, de uma rua antiga, num bairro antigo...


Minha caloi 10, sempre fiel.


Existem lugares especiais, que gosto de voltar de vez enquando e fotografo quando levo a máquina. A Ladeira da Misericórdia, que fica no Castelo, é um deles. Último resquício preservado do antigo morro do castelo, que foi abaixo em 1922 a mando do então prefeito Carlos Sampaio que entre muitas coisas alegou que o lugar prejudicava a ventilação da cidade. A ladeira que está lá até hoje foi construída no século XVII com pedras totalmente irregurales (calçamento pé-de-moleque).


Ladeira da Misericórdia


Outro lugar muito interessante é o bairro da Saúde. Todas aquelas ruas e seus antigos casarios, fico até emocionado quando passo por lá. Emocionado por coisas adversas, a lindeza do local e o estado em que se encontra. Quando tenham oportunidade passem por lá pois com certeza vai acabar, já que as pessoas que mandam por aqui não se importam com isso. Na Saúde existe até hoje, e em funcionamento, o antigo Moinho Fluminense, fundado em 1887. Começou seus trabalhos com autorização da Pricesa Isabel, e suas atividades eram a de moer milho e cereais. Depois de mais de 40 anos, começou a ser produzido ali a farinha de trigo Boa Sorte e até hoje se industrializa trigo neste local. É o maior moinho do hemisfério sul. Quando ando por lá, fico impressionado com o tamanho e a estrutura do local, é muito bonito.


Moinho Fluminense


Recanto maravilhoso e cheio de hisórias da nossa cidade é a Pedra do Sal. Adentrando a Praça Mauá e na base do Morro da Conceição (que falarei outra hora), era lá onde se desembarcava e comercializava o sal que vinha do porto, antes da venda ele era garimpado pelos escravos. Ali nasceu o nosso samba no final do século XIX, e foi ponto de encontro de vários músicos das antigas. Moravam por ali Machado de Assis e João da Baiana, homem que introduziu o pandeiro no samba. Um Lugar fácil de chegar (pra quem não tem bicicleta pegue o 220 e desça no ponto final - Pça Mauá) e tranquilo de conhecer.


Pedra do Sal

Adoro também a Praça XV, êta lugar charmoso. Da feira de antiguidades que tem ali aos sábados não vou nem falar, só indo mesmo. Mas além disso temos a parte dos arcos dos Teles (onde morou Carmen Miranda), o Paço Imperial (onde foi assinada a lei Áurea), a igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores (de 1727), e muito mais. Mas o monumento de minha preferência é o chafariz do mestre Valentim (1779).


Chafariz do mestre Valentim


Nos bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa originou-se uma de minhas palavras prediletas: Botequim. Isso veio a partir das "bóticas", uns pequeninos armazéns que comercializavam um pouco de tudo. O povo sempre dava uma passada nas "botiquinhas" depois de voltar das feiras ou de outro lugares. Como não se havia luxo, paravam ali para comer algum petisco e beber uma taça de vinho, nada muito diferente dos dias de hoje.


Estes são apenas alguns exemplos do que devemos conhecer no rio de Janeiro, e se orgulhar também. Conheço muitos outros lugares, mas não dá para escrever tudo de uma vez só. Amo nossa cidade e sua história e vasculho cada canto toda vez que saio de bicicleta, é uma descoberta atrás da outra. E uma coisa tenho certeza, o encanto do centro e a zona norte (subúrbio incluído), é muito superior ao da zona sul, e sem nenhum preconceito. Passeiem e descubram o quanto é bonito e interessante, não deixem a vida louca e corrida tomar todo o seu tempo.

Nos encontramos por aí.
Até.

10 Março 2007

31 VERÕES

Nascia eu, em 10 de março de 1976 no centro do Rio, ao lado da Lapa. O tempo passa rápido, mas claramente posso perceber que muita coisa mudou daqueles tempos pra cá. O aumento da violência, esta merda de globalização, odeio esta palavra, a rapidez como as coisas andam, a alienação das pessoas, a irresponsabilidade do homem... Tá foda, mas temos que dar um jeito para tirar algum momento prazeiroso nesta situação.

Foi o que eu fiz indo até o Bico Doce, tirar da minha mente estes pensamentos que me inquietam a cada dia que passa. Tinha combinado com o meu tio/pai Celestino, o meu cunhado André e com o meu irmão Zé, mais de 25 anos de amizade. O pessoal da uisqueria também estavam me esperando, sabiam que estava ficando mais velho.

Cheguei por volta das 19 horas, o André já estava sentado na mesa da diretoria com o Adolfo e o Áquila. Juntei-me a eles e o Claudio pôs minha garrafa na mesa. Estavam papeando sobre música, pra variar, assunto que Adolfo domina por ser um "percussa" dos bons e conhecer muita gente da área. Eu e André só escutando e aprendendo com o papo das antigas, mas de vez enquando surpreendemos o coroa.


mesa da diretoria

Logo depois que Áquila, gente finíssima, saiu pra dar uma aula, chegaram o Zé e meu tio/pai. Sentaram no canto da diretoria também, meu tio foi apresentado a todos e adorou o local.

- Claudio, põe mas dois copos com gelo aqui por favor.


Zé, eu, Celestino, André e Adolfo


E começaram a se hidratar conosco. Meus amigos perceberam que meu tio estava muito feliz ali, os camaradas além de serem de sua faixa etária o acolheram muito bem, parecia que já frequentava a casa à anos, mas era apenas um debutante. Estava extremamente feliz por reunir este pessoal, falando sobre coisas antigas e boas, sorrindo com gente querida, olvidando por um momento a vida feroz que estava fora dali.

Meu tio e o Adolfo se identificaram demasiadamente, sabiam das mesmas coisas e frequentaram os mesmos locais em décadas passadas. Quando Adolfo disse que ia no El Faro, restaurante de toda a vida de trabalho de meu tio/pai, foi foda, euforia total. A conversa voltou-se para os bares e lugares antigos da noite do Rio, Galeria Alaska, Beco das Garrafas, Beco da Fome, Rio Jerez, Mamute... Discutiram até sobre os trajetos dos bondes.

- Se lembra do bonde 36 que fazia a curva ali na cancela...

A conversa estava demais, os mais novos delirando e querendo fazer o tempo voltar atrás e o resto das pessoas do Bico Doce entraram na roda também, Cabral, Tião, João, Maurício, Assis... Todos. Eram tantas as coisas que estavam sendo tiradas do fundo do baú que era impossível não prestar atenção. O Áquila voltou da aula e enriqueceu ainda mais a prosa.

Eles estavam tão contentes que houve uma hora que o Adolfo abraçou meu tio e disse que iria adotá-lo:

- Aí Felipe, adotei o cara, tu perdeu o tio. Esse homem é muito gente boa, tem que voltar mais aqui...


Celestino e Adolfo

Rimos pra cacete nessa hora, o Zé se acabou na mesa. Ah, esqueci de falar que isso tudo rolou ao som de Cartola, Elizeth Cardoso cantando Vinicius, Kid Morengueira, Ella Fitzgerald, Count Basie, Chico... Tava muito cruel esse repertório, que noite foi essa.

Fechamos o bar, pegamos um táxi e nos mandamos. O Zé ficou no caminho, deixei meu tio/pai em casa e depois só pensava numa coisa: minha cama.

Hoje pela manhã ainda teve mais, reunimos parte da família e almoçamos no Alemão (Bar Brasil). E lá é a mesma coisa, aquela espanholada de velhos tempos. Um dos donos, seu josé, só de Alemão tem 50 anos, os garçons Chico e Bigode (tudo espanhol, galego) são mais novos, só 47 anos de casa.


Celestino, André, Alfredo, Vini e eu

Mais conversa, mais lembranças... Não consigo deixar estes locais, aprendo muito e vejo coisas que nunca vi com estes seres especiais. E aquele chopp na pressão do Alemão é brincadeira.

Amanhã irei almoçar no Joaquim (minha segunda casa) com mais amigos e família, na certeza de que minha memória voltará a sorrir.

Abraço.

08 Março 2007

MULHERES...

Minhas meninas de toda a vida
Que dão força ao meu coração
Estão sempre ao meu redor
Remediando minha ilusão

De Marcinha, valente da Vila que me abraça em todos os momentos
A Helô, ternura e segurança do meu andar

De Nath e Aninha, orgulho, alegria, lindeza e amores do meu viver
A Lolinha e Paulinha, mãe e filha que se completam para suprir os meus momentos de fraqueza e banzo de nossas terras... Amo-as demais.

De Dani a Belinha, minhas primas-irmãs
A Narcisa e Lucinha, tias queridas como mães

De Larinha, que chega para engrandecer minha vontade de continuar...
A Luiza, a mais sublime das mulheres, a quem devo tudo, todos os sentimentos do meu humilde ser.

Este é um sincero e breve texto para homenagear neste dia, as mulheres que me acompanham e me dão afago em todos os momentos de meu existir.

Viva as mulheres, porque sem elas eu não vivo.

07 Março 2007

BOLACHA DA VEZ


Caros companheiros, estou hoje inaugurando um coluna para boêmios e nostalgicos que gostam de música. São dicas de discos (vinil) que nos deixam à vontade para chorar junto de nosso copo amigo, fazem com que nosso pensamento fique morrendo de vontade de viver o tempo que já passou, e também nos auxiliam a relembrar muitas alegrias...

A série BOLACHA DA VEZ se inicia hoje com um disco de uma mulher, e que mulher. Nada mais nada menos que Dolores Duran, a nossa diva do jazz e da bossa, com sua melosa e sedutora voz que dilacera corações saudosos e maltratados pela solidão. Este vinil é datado de 1959, reune canções de seus lps de 1954 e 1956 e foi gravado pelo selo Copacabana, sendo depois regravado pela Beverly.

É o disco perfeito para se apreciar junto com um scotch, bem devagar. Traz consigo pérolas da música, algumas como: "Conversa de botequim" (Noel Rosa e Vadico), "Solidão" (Dolores Duran), "Fim de caso" (Dolores Duran) e o jazzão "My funny valentine" (R. Rodges - L. Hart), onde Dolores entrega todo seu sofrimento para cantar de forma magistral esta canção, a ponto de Ella Fitzgerald declarar publicamente que nunca ouvira interpretação tão perfeita e sentimental deste jazz.

Este é o tipo de vinil que faz falta em certos momentos, e se o encontrarem por acaso não hesitem, levem para casa, será uma boa companhia.

Aí segue de presente o lamento de Dolores: Solidão.



Seguem as faixas:

lado1
1- MANIAS (Flavio Cavalcanti - Celso Cavancati)
2- FIM DE CASO (Dolores Duran)
3- BOM É QUERER (Fernando Lobo)
4- NÃO ME CULPE (Dolores Duran)
5 - SOLIDÃO (Dolores Duran)
6 - MY FUNNY VALENTINE (R. Rodges - L. Hart)

lado2
1 - A FIA DE CHICO BRITO (Francisco Anisio)
2 - NÃO SE AVEXE NÃO (Francisco Anisio - Haydée Paula)
3 - ESSE NORTE É MINHA SORTE (Miguel Gustavo - Ruy Duarte)
4 - CONVERSA DE BOTEQUIM (Noel Rosa - Vadico)
5 - ESTRANHO AMOR (David Nasser - Garoto)
6 - AVE MARIA LOLA (Sergio G Siaba)


Quando puder colocarei outras pérolas para que possam ser conhecidas ou relembradas, dando assim continuidade a esta série.

Forte abraço e até a próxima.

04 Março 2007

ARMAZÉM SENADO

Como é bom estar no Armazém Senado! Pé direito de cinco metros de altura e um velho e largo balcão de mármore. Lugar de 100 anos de boemia, aliás, já estou convidado para a comemoração desta data em abril. Comanda este patrimônio seu Antônio e os dois filhos, Fernando e Henrique, pessoal boa praça, das antigas. Neste velho armazém encontramos um pouco de tudo: sandálias havaianas, milho a granel, salsicha em lata, lustra móveis, Nescau, vassoura, e logicamente, uma cerveja capa branca no copo Nadir Figueiredo, mais conhecido como americano. De comer não há variedades, somente frios. Agora, pra quem é da casa o seu Antônio libera a cozinha para que possamos fazer comida, exatamente assim, pode acreditar.


Passei lá neste sábado com minha senhora (Heloisa), minha irmã (Nathalia) e meu cunhado e irmão (André), os camaradas já estavam presentes e quando cheguei o Mendonça foi logo me dizendo onde estavam os discos:

- Fala Felipe, comprei esta caixa com uns 100 vinis. Fica à vontade e bota pra quebrar.
Explicando. Todo o primeiro sábado do mês o Fernando coloca uma vitrola para que os clientes possam levar seus discos e escutá-los. Tem gente que já deixa os lps num canto do armazém pro outro mês. Como eu coleciono discos, gosto de ficar comandando a vitrola e então virei uma espécie de dj do pessoal. O som é sempre nostálgico, como Cartola, Elizeth, Chico, Nelson Cavaquinho, Jorge Aragão, Anisio Silva, Sinatra...




E assim vai. Com uma Brahma sempre gelada no copo, estava conversando com a Helô e a Nath quando veio até a minha pessoa um senhor que estava bebendo no balcão ao nosso lado:

- Você gosta de música?

- Sim, gosto.

- Eu toco violão há 40 anos, sou solista. Mas minha profissão é engenheiro de tubulações e civil. Estou aqui com a minha viola de 1962. Quer ver?

O cara era a maior figura, o violão dele era realmente antigo e bem cuidado. Ele ficou me explicando coisas de música, sustenido, notas... E até deu uma palhinha pra nós. É aquele tipo de cara que parece que tá na merda por que a família o largou, ou vice-versa. Depois de muita conversa, seu Oscar, que pediu para o chamássemos só de Oscar, nos contou que mora "sozinho" na Gomes Freire porque tinha se divorciado da mulher, mas que de vez em quando vê os netos. E por umas quatro ou cinco vezes, já depois de tomar algumas, falou com ar de saudades que ainda gostava de sua ex-esposa. Demos tanta atenção pro cara que ele falou que estava muito feliz de estar conosco e me deu um cartãozinho da firma dele para ligarmos no caso de querermos aprender violão. Coroa gente fina, um bom exemplo de boemia e nostalgia.




Oscar, eu e André


Quando ele foi embora me juntei ao André, que conversava com o Ronaldo, um companheiro de copo. Falávamos de como o mundo de hoje está perdido e a conversa foi boa porque o cara é radical que nem eu, acreditando que não existe tempo como o de antes. O André falou rindo pra caramba:

- Pô Felipe pensei que só você era assim meio radical, mas tô vendo que tem mais gente...

E Ronaldo nos contando como conheceu Nelson Cavaquinho, Monarco, Nelson Sargento, e outros da velha guarda. Convidou-nos para irmos um dia na Mangueira conhecer o pessoal. O Nelson Cavaquinho ele diz que conheceu num bordel quando era novo, e que sua avó que lhe deu o dinheiro para conhecer os prazeres da vida. Outra figura, outro gente fina.


Nessa altura do campeonato Heloisa e Nathalia tinham ido dar uma passada na feira do rio antigo que tem todo mês na rua do Lavradio, um pouco depois resolvi dar olhada também e procurá-las. O André ficou conversando com o Ronaldo. A feira estava cheia, várias barracas com coisas antigas bem legais, incluindo muitos vinis. Tinham dois grupos de música se apresentado na feira, um de tango e outro de choro, este último com a filha do saudoso Rafael Rebelo no cavaquinho. Andava por ali até me deparar diante do velho cortiço da rua do Lavradio, primeiro endereço da minha família espanhola no Brasil na década de 50. A fachada é muito bonita, mas está degradada pelo tempo e por um incêndio que há dois anos danificou mais ainda o lugar. E como os filhos da puta que governam o país cagam pra tudo o que é história, não tenho muitas esperanças de que vai ser reformado. Entrei no cortiço, ainda há pessoas morando ali, tirei várias fotos e depois fiquei olhando o local, me deu a maior emoção, confesso que cheguei a chorar. Saí dali e encontrei as duas que perceberam que estava com olhos vermelhos e eu contei o motivo.


Helô e Nath

Fachada do Cortiço


Voltamos para o Armazém e o pessoal tinha quase todo ido embora, é que sábado fecha cedo. André ainda bebia com o Ronaldo e então pedimos a saideira pois Fernando tinha começado o ritual de lavar os pés dos fregueses. Como é bom fechar um bar, ainda mais se tratando deste lugar especial.


Fomos embora e andamos juntos até a rua do Lavradio. André me chamou atenção para um senhor encostado do lado de fora de um bar, ele parecia ser de outra época. Perguntei-lhe seu nome e logo depois se poderia tirar uma foto dele:

- Meu nome é Lepoldo. Pode tirar a foto, mas deixa eu largar o copo senão vou pensar que sou cachaceiro.

Eu disse que não tinha problema, só não tinha como sair dali sem uma foto dele. vejam a figura logo abaixo, o que acham?

Leopoldo

Depois disso André e Nathalia foram para Copacabana, bairro do André, e eu pra casa com a Heloisa. Quando estávamos na Men de Sá, perto do ponto de ônibus, resolvemos passar no Capela para comer algo e tomar outra saideira, desta vez chopp. Caldeireta com muito colarinho, do jeito que eu gosto, muito bom. Seu Aires (um dos donos) passava por ali e fui falar com ele. Falamos de El Faro, Caneco 70, Caneco 2, de meus tios e pais, e da Galicia também.


Eu e seu Aires

Dia de vários momentos e conversas com pessoas sempre especiais. Temos que aproveitar e dar valor aos belos momentos da vida pois eles estão cada vez mais difíceis de acontecer, e quando acontecem temos que desfrutar e agradecer.


Até outro momento.

02 Março 2007

UISQUERIA BICO DOCE

O BICO DOCE é um lugar onde me encontro, às vezes queria viver ali para sempre. Beco das Cancelas, localizado entre as ruas Buenos Aires e Rosário, o endereço da boemia. Como costuma dizer o Adolfo: “último reduto intelectual do centro do Rio”. Adolfo estava hoje lá também, aliás, ele sempre está no Bico Doce. Grande percussionista das antigas, já tocou com Milton Banana e conheceu o Ed Lincoln na época do beco das garrafas. Em vez de ir pra casa depois de mais uma semana de trabalho, meu corpo ignorou seu cansaço e me levou para a Uisqueria Bico Doce. Ele estava certo. Ao entrar, logo à esquerda um quadro com uma nota do Jaguar sobre o local, fala sobre nostalgia, sentimento nobre que já me emocionou muitas vezes.






Diz o Jaguar:

“NOSTALGIA. Faz 45 anos que eu pelo menos uma vez por semana, ia ao Bico Doce tomar uns chopinhos com sanduíche de patê. O Bico Doce, no Beco das Cancelas, entre as ruas do Rosário e Buenos Aires, era o último pub do Rio. O dono, seu Camello, era o tipo ideal de avô da gente. Rosado, careca, miúdo, com um bigode branco e gravata borboleta preta. Seis mesinhas redondas de mármore, cadeiras de palhinha, na parede anúncio da Brahma com mais de 50 anos (um grande gordo enchendo a cara de cerveja). Quando eu trabalhava no Banco do Brasil ia sempre lá. A freqüência era de velhos negociantes e corretores da bolsa, os bêbados menos barulhentos da cidade. Seu Camello dava duro atrás daquele balcão há 65 anos, sabem lá o que é isso? Ruy Barbosa de vez e em quando tomava uma cervejinha lá (bebia mal, era muito fraco para a bebida), o Barão do Rio Branco às vezes também aparecia. Há anos eu programava uma entrevista com seu Camello. Na semana passada peguei o gravador e me mandei pro Bico Doce ouvir as histórias dele. A tabuleta da porta já não estava mais lá, nem as mesinhas de mármore, nem os velhinhos, nem nada. Só montes de caliça, tijolos e areia. Seu Camello morreu, o Bico Doce foi varrido do mapa e na certa vão fazer no lugar um bar cheio de fórmica. Assim é a vida. Uma bosta.” (Jaguar)




Os amigos de sempre estão sentados com suas respectivas garrafas na mesa. Saúdam-me com estardalhaço, e puxam minha cadeira para que eu possa sentar. Em poucos segundos o Cláudio traz minha garrafa de black label e um copo largo lotado de gelo. A geladeira da casa também é de madeira, daquelas antigas...
Quase todos da confraria estão lá, Adolfo, Tião, João, Maurício, Assis, Sosó, Cabral... Só faltava o Fernando que não pôde comparecer.

A conversa estava instalada em cima de uma curiosidade. Rogério falava que seu pai, um sambista das antigas chamado Toni Duran, tirara uma foto quando era novo com uma vedete famosa. O foda foi que ele não lembrava o nome da mulher. A única pista que surgiu foi que ela tinha feito um filme com o Oscarito chamado Pintando o Sete. Aliás, o Adolfo falava a toda hora que ela era muito gostosa e quando era novo ia muito pro banheiro pensando nela. Já sabem pra que...

O bar inteiro fritando os miolos pra descobrir, celular pra lá e pra cá e nada. Liguei pro Mauro, pra minha mãe, e até pra minha vó. Enquanto isso a galera foi chutando: Virginia Lane, Luz del Fuego, Íris Bruzzi, Renata Fronzi... Isso durou uma meia hora até que o Rogério resolveu ligar para Espanha e perguntar pro pai dele. Putz! No final das contas era a Sonia Mamede. Alívio e êxtase geral. Então, o Tião indagou:

- Essa mesmo!!! Maravilhosa! Tem certeza que a foto do seu pai é com ela mesma? Não tá inventando não?




Depois de concluído o assunto, me senti no dever de colocar um som para a “rapaziada”, um de meus cds que trouxe na mochila para esta ocasião. Entrei pelo balcão adentro, liguei o som e coloquei Nelson Gonçalves pra o delírio do Cabral, que canta todas. Tião puxou o cigarro colocou a mão na cabeça e começou a pensar. Logo depois, o João me veio com uma pergunta:

- Quer matar o Tião cara? A mulher o largou há dois meses, assim ele vai chorar...

E faltou pouco.

Mas o Tião pediu pra deixar o cd, disse que está iludido com as mulheres e que a realidade de um casamento não é simples assim... Após ele expor este pensamento eu rapidamente me levantei para ler o provérbio que está pendurado no quadro acima da porta de entrada. Depois disso entendi porque ele sempre está por ali.





Antes de ir embora o Adolfo e o Cabral pediram para que eu não faltasse na próxima sexta para brindarmos o meu aniversário. Como não gosto de fazer desfeita, estarei lá.
Saí dali com o sentimento de que realmente sou querido no Bico Doce, mesmo com a diferença de idade entre eu e meus adoráveis companheiros.



Tião e Cabral


Semana que vem o Fernando vai também, vou levar os instrumentos e faremos um som, outros poesia e viveremos mais um dia bonito de nostalgia.

Até lá.